Seta para a direita Seta Fechar

Mundo

Os “Grenadiers” do Haiti trazem esperança e momentos de alegria na Copa do Mundo de 2026

8 min de leitura

Imagem de destaque criada por Janine Mendes-Franco usando elementos do Canva Pro.

O Haiti não disputa a fase final de uma Copa do Mundo da FIFA desde 1974. Por 52 anos, a seleção nacional de futebol, conhecida como “Les Grenadiers” (Os Granadeiros), nunca conseguiu superar as rodadas classificatórias da Concacaf — até agora. A seleção haitiana fez um “retorno histórico” à Copa do Mundo deste ano, ao terminar em primeiro lugar no Grupo C durante a terceira rodada das eliminatórias da Concacaf. O Grupo C é difícil, com pesos-pesados como o Brasil, que já conquistou o cobiçado troféu em cinco ocasiões, e o Marrocos, considerado uma das seleções mais bem-sucedidas da África. Atualmente, o Haiti está na última colocação do grupo, logo atrás da Escócia.

Mesmo após a longa espera para ver a seleção nacional atuar no cenário mundial do futebol, os haitianos mantiveram um amor infinito pelo “esporte mais bonito do mundo”. O futebol pode ser visto sendo jogado em todos os lugares no Haiti: nas escolas, nas ruas, nos quintais, em campos abertos e em corredores estreitos. Onde quer que haja um pequeno espaço aberto, praticamente todo mundo — de crianças a adultos — está jogando. O futebol é, de fato, o esporte nacional do país.

Quando as gangues superam os gols No entanto, o Haiti não possui muitas instalações esportivas modernas. As poucas estruturas que existiam não podem mais ser usadas porque estão sob controle de grupos armados; algumas foram completamente destruídas. O FIFA Goal Center, no município de Croix-des-Bouquets, por exemplo, era a principal academia de formação do futebol de base. A gangue 400 Mawozo, liderada por Wilson Joseph (mais conhecido como “Lanmò San Jou” — “A Morte Não Tem Dia”), tomou controle da área e, segundo diversos relatos, vários prédios do complexo do FIFA Goal Center foram incendiados.

Nem mesmo o Estádio Nacional Sylvio Cator, em Porto Príncipe, a histórica casa do futebol haitiano, escapou das gangues, que tomaram e danificaram o local em 2024. A Federação Haitiana de Futebol (FHF) confirmou que o estádio foi danificado e que materiais e equipamentos foram roubados do local. O Centro Olímpico, localizado na área de Croix-des-Missions, também está preso em uma zona controlada por grupos como o Chyen Mechan e gangues sediadas em Canaan, o que faz do esporte um dos setores mais atingidos pela violência.

Diante de uma situação tão difícil, a FHF, liderada por Monique André, tem tentado apoiar a equipe ao máximo possível. Como não podiam jogar em casa, os Grenadiers precisaram disputar todas as suas partidas classificatórias como “mandantes” em Curaçao, outra nação insular do Caribe que se classificou para a Copa do Mundo deste ano.

Muitos se surpreenderam com o sucesso da seleção haitiana, formada predominantemente por jogadores que vivem no exterior e por atletas com dupla nacionalidade, entre eles os atacantes-estrela Duckens Nazon, Wilson Isidor e Frantzdy Pierrot; o meio-campista Jean Ricner Bellegarde; o goleiro Johny Placide; e o zagueiro Ricardo Adé. O único jogador vindo diretamente da liga local é Wédensky Pierre, que atua pelo Violette Athletic Club. As competições locais de futebol foram completamente interrompidas por causa da insegurança, embora a liga tenha conseguido organizar um pequeno torneio especial com o objetivo de manter clubes e jogadores ativos.

Um aniversário significativo É simbólico que, durante um dos momentos mais difíceis da história do Haiti, em 18 de novembro de 2025, os Grenadiers tenham se classificado oficialmente para a Copa do Mundo de 2026. A data é especialmente importante porque marca o aniversário da Batalha de Vertières, em 1803, a batalha final da Revolução Haitiana que garantiu a independência do país. Haitianos ao redor do mundo comemoraram. No país, a euforia tomou conta de tudo: bandas de rara saíram às ruas durante as noites, enquanto pessoas de todos os bairros e grupos sociais celebravam juntas.

Para Marc, um torcedor local, foi um momento inesquecível:

Jodi a mwen plis pase kontan, mwen jwenn fyète m ankò kòm ayisyen, mwen santi m ap vibre. Sa k pase a se plis pase yon senp kalifikasyon pou yon konpetisyon foutbòl […] se yon mesaj pou lemonn antye pou n di Ayiti pa rezime ak vyolans gang, salte ak mizè. Se yon pèp ki rich ki gen anpil bèl bagay li ka pwouve.

Hoje estou mais do que feliz, recuperei meu orgulho como haitiano, sinto que estou vibrando. O que aconteceu é mais do que uma simples classificação para uma competição de futebol […] é uma mensagem para o mundo inteiro dizer que o Haiti não se resume à violência das gangues, à sujeira e à miséria […] somos um povo rico, que tem muitas coisas belas a provar.

Logo após a classificação do Haiti, o vice-capitão da seleção, Ricardo Adé, que joga profissionalmente no Equador, enviou uma mensagem direta tanto às gangues quanto ao governo: “Ouvè peyi a” — “Abram o país.” Ele repetiu esse pedido nas redes sociais e em entrevistas, destacando que as gangues continuam bloqueando as principais estradas que ligam a capital ao norte e ao sul do país.

Comunidades se unem Com a Copa do Mundo de 2026 em andamento, pessoas em todo o Haiti têm acompanhado as partidas com grande empolgação: das áreas mais pobres da classe trabalhadora aos bairros residenciais mais ricos, os bairros estão decorados; ônibus públicos, carros particulares e mototáxis exibem com orgulho a bandeira haitiana; vendedores ambulantes vendem milhares de camisas da seleção; e faixas coloridas enfeitam praças públicas por todo o país.

Para ajudar todos a assistir aos jogos, o governo haitiano, por meio do Ministério do Interior, distribuiu televisores de telão para autoridades locais e regionais, o que permitiu que moradores de vilarejos remotos se reunissem em prefeituras, centros comunitários e até mesmo em alguns campos para deslocados internos, para assistir às partidas juntos.

Ainda assim, a dura realidade enfrentada pelo país permanece inalterada. Mesmo enquanto os haitianos assistem à Copa do Mundo, gangues armadas continuam atacando comunidades locais como Cité Soleil, onde uma onda de violência iniciada em maio tem forçado milhares de moradores a deixar suas casas.

Uma desafiadora “fase de 32” O grupo da primeira fase dos Grenadiers, muitas vezes chamado de “grupo da morte”, não foi nada gentil com eles. A primeira partida aconteceu no sábado, dia 13 de junho, em Nova Jersey, onde a diáspora haitiana nos Estados Unidos compareceu em peso para apoiar a equipe diante da Escócia. Os Grenadiers perderam a partida por 1 a 0.

Em cada cidade e estado visitados pela equipe desde então, as comunidades haitianas locais se uniram para receber os jogadores, torcer por eles e demonstrar apoio. Na partida contra o Brasil, em Boston, Massachusetts, no dia 19 de junho — que os Grenadiers perderam por 3 a 0 —, o retorno do Haiti ao cenário mundial do futebol se tornou motivo de orgulho e uma pausa em relação às preocupações políticas do dia a dia. Milhares de torcedores viajaram entre estados para lotar estádios e demonstrar seu carinho, unindo pessoas de uma forma forte e significativa.

Apesar desse forte apoio, na terceira partida a equipe já sabia que seria eliminada na primeira fase. Ainda assim, os jogadores deram tudo de si na partida final contra o Marrocos, marcando dois gols em uma dura derrota por 4 a 2.

De volta ao Haiti, as fan zones estavam lotadas de gente torcendo até o fim. Nas redes sociais, torcedores expressaram profunda gratidão aos jogadores por sua coragem. Nadia, uma haitiana que vive na República Dominicana, disse:

Mwen fyè de pakou grenadye nou yo; sa fè 52 zan depi nou pat janm patisipe nan yon koup dimond foutbòl, men gras ak yo nou reviv moman istorik sa a, malgre nou pa rive kalifye pou dezyèm tou konpetisyon an, se sa nou tout te espere men domaj sa pa rive fèt, men patisipasyon Ayiti nan mondyal sa a, fè laprès entènasyonal chanje naratif la sou nou, paske depi yo pale de Haiti nan laprès entènasyonal yo souvan dekri vyolans gang, enstabilite politik ak mizè, ak grenadye yo lemonn antye dekouvri yon lòt aspè de Ayiti, mwen pa gen mo pou mwen remèsye grenadye nou yo; mwen fyè de yo.

Estou orgulhosa da trajetória dos nossos Grenadiers; já se passaram 52 anos desde a última vez que participamos de uma Copa do Mundo de futebol, mas graças a eles revivemos esse momento histórico. Mesmo não conseguindo nos classificar para a segunda fase da competição, o que era o que todos esperávamos mas infelizmente não aconteceu, a participação do Haiti nesta Copa do Mundo fez a imprensa internacional mudar a narrativa sobre nós. Porque, sempre que falam do Haiti na imprensa internacional, costumam descrever violência de gangues, instabilidade política e miséria, mas com os Grenadiers o mundo inteiro descobriu um outro lado do Haiti. Não tenho palavras para agradecer aos nossos Grenadiers; tenho muito orgulho deles.

A Copa do Mundo dos Grenadiers pode ter chegado ao fim, mas eles conquistaram algo importante: trouxeram um momento de felicidade e união para um país que atravessa uma situação difícil, e mostraram ao mundo a resiliência do Haiti.

Global Voices

Conteúdo republicado — por Jude Pierre Louis

Mais em Mundo

Mais recentes de O Delator

  1. 1 Não, a jornada de trabalho não determina o PIB
  2. 2 Ministério da Saúde recomenda ampliar vacinação contra o sarampo em SP
  3. 3 Anvisa aprova novo medicamento para câncer de pulmão
  4. 4 Discussão sobre fim da escala de trabalho 6×1 continua em agosto
  5. 5 Fiocruz e farmacêutica assinam acordo sobre novo antirretroviral
  6. 6 O impacto das mudanças climáticas pode equivaler a 3,3 milhões de anos de transformações na vegetação tropical
  7. 7 RS tem alerta vermelho para inundação dos rios dos Sinos e Uruguai
  8. 8 FGTS: 138 milhões de trabalhadores receberão R$ 13 bilhões de lucros
  9. 9 Brasil atinge meta de redução da transmissão vertical de hepatite B
  10. 10 Como saber se frutas e legumes ainda são seguros para comer, e quando devem ser jogados no lixo

Assine a Newsletter de O Delator:

Receba as principais apurações de O Delator direto no seu e-mail, toda semana. Sem custo, sem spam — só o jornalismo que importa pro Amazonas.