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Quanto vai custar reconstruir a Venezuela depois dos terremotos?

8 min de leitura

Três semanas depois que os terremotos gêmeos atingiram a região costeira da Venezuela, o número oficial de mortos subiu para quase 5.000, enquanto cerca de 18.000 pessoas seguem desalojadas. Conforme a resposta emergencial imediata dá lugar a esforços de recuperação de mais longo prazo, a atenção se volta cada vez mais para os recursos financeiros necessários para atender às necessidades humanitárias da catástrofe, mas também para reconstruir as casas, a infraestrutura e a economia do país.

As avaliações iniciais se concentraram principalmente em estimar os danos físicos diretos a edifícios, infraestrutura e outros ativos tangíveis. Essas estimativas, no entanto, não capturam as perdas econômicas indiretas resultantes de interrupções na produção, no comércio, no emprego e nos serviços públicos. À medida que informações mais completas vão surgindo, o impacto econômico total estimado do desastre deve, portanto, aumentar substancialmente.

Como as perdas de um desastre são estimadas?

O padrão internacionalmente reconhecido para estimar o impacto econômico de desastres é a Metodologia de Avaliação de Desastres desenvolvida pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), pioneira na área. O modelo foi adotado desde então por grandes instituições internacionais, incluindo o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Sua terceira edição, publicada em 2014 em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), oferece uma abordagem abrangente para estimar não só os efeitos diretos dos desastres, mas também seus impactos socioeconômicos em nível macroeconômico e domiciliar, além dos recursos financeiros necessários para a recuperação e a reconstrução.

Segundo essa metodologia, os impactos de um desastre são classificados em três categorias: danos, perdas e custos adicionais. Danos referem-se à destruição de ativos físicos como edifícios, instalações, máquinas, equipamentos, infraestrutura e estoques, avaliados pelo custo estimado de reposição a preços pré-desastre.

Perdas representam o valor de bens e serviços que deixam de ser produzidos ou entregues desde o momento do desastre até a recuperação completa. Estimar essas perdas exige comparar a trajetória pós-desastre dos setores econômicos com um cenário hipotético em que o desastre não tivesse ocorrido — por isso, essas estimativas dependem de uma série de suposições e estão sujeitas a incertezas.

Custos adicionais incluem gastos extraordinários feitos por governos e pelo setor privado em resposta ao desastre, como suprimentos médicos emergenciais, ajuda humanitária e outros bens e serviços essenciais.

Por fim, a metodologia estima as necessidades de financiamento para recuperação e reconstrução, que englobam os custos das políticas públicas e investimentos necessários para restaurar as condições econômicas e sociais normais — incluindo a reconstrução de infraestrutura e serviços básicos, bem como o financiamento de programas de assistência alimentar, transferências em dinheiro e outras formas de apoio a famílias afetadas.

Qual o tamanho das perdas econômicas dos terremotos?

Ainda não sabemos a escala completa da destruição. Enquanto o governo venezuelano afirma que mais de 2.000 estruturas de infraestrutura foram gravemente danificadas, imagens de satélite da Nasa mostram que o número real é mais próximo de 30.000.

Apenas dois dias depois dos terremotos gêmeos, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgou uma avaliação preliminar dos danos físicos diretos a moradias e outros ativos, usando imagens de satélite e Sistemas de Informação Geográfica (SIG) com inteligência artificial, por meio de sua metodologia de Análise Digital Rápida (Rapida). A avaliação estimou perdas diretas de US$ 6,7 bilhões, numa faixa de US$ 4,7 bilhões a US$ 8,7 bilhões, equivalente a cerca de 6% do PIB da Venezuela.

O economista venezuelano Asdrúbal Oliveros argumenta que o dano pode ser mais extenso, estimando perdas diretas entre US$ 7 bilhões e US$ 9 bilhões. Ele sugere ainda que o custo total da reconstrução pode chegar a US$ 12 bilhões a US$ 15 bilhões, refletindo não só a reposição de ativos danificados, mas também os custos mais amplos da recuperação econômica.

Já o Escritório das Nações Unidas para Redução de Risco de Desastres (Undrr) produziu uma estimativa significativamente maior. Sua avaliação coloca os danos físicos diretos em aproximadamente US$ 37 bilhões — quase 40% do PIB venezuelano.

Cerca de dois terços dessas perdas são atribuídos a danos em edifícios residenciais, comerciais, educacionais, de saúde, governamentais e industriais, enquanto o terço restante corresponde a infraestrutura crítica, incluindo redes de telecomunicações, estradas, portos, aeroportos e outros ativos públicos.

Dano local, consequências nacionais

Embora seis estados tenham sido atingidos, a maior parte do dano físico causado pelos terremotos gêmeos está concentrada no estado de La Guaira, além de partes de Caracas, a capital. Como resultado, as perdas econômicas devem ficar em boa parte restritas a uma região que não representa uma fatia significativa da capacidade produtiva da Venezuela, sobretudo nos setores de petróleo, indústria e agricultura.

No nível local, porém, o impacto é substancial. Segundo um relatório de políticas públicas publicado pela ThinkAnova em parceria com o Microsoft AI for Good Research Lab, cerca de sete em cada dez edifícios danificados em La Guaira ficam em Catia La Mar, enquanto a gravidade dos danos e o número de famílias afetadas em Caraballeda são particularmente altos. Esses impactos também atrapalharam uma das principais atividades econômicas da região: o turismo.

Oliveros identifica moradia, infraestrutura, comércio, transporte e logística como os setores mais gravemente afetados. Danos na pista principal do Aeroporto Internacional Simón Bolívar, em Maiquetía — o principal porta de entrada internacional do país — forçaram seu fechamento temporário. Embora as operações tenham sido parcialmente retomadas, o aeroporto ainda não voltou à capacidade total, levando companhias aéreas a redirecionar voos por Valencia e Barcelona, remodelando a atividade econômica nessas regiões.

Reconstruir sob restrições financeiras severas

Dadas as condições econômicas frágeis do país, reconstruir a Venezuela representa um desafio extraordinário. Depois de uma contração de cerca de 75% na produção econômica e um período de hiperinflação que superou 300.000% ao ano, o colapso no valor do bolívar venezuelano corroeu severamente a renda das famílias, ao mesmo tempo em que reduziu drasticamente tanto a capacidade de crédito do setor bancário quanto o mercado de seguros. Essas fragilidades estruturais limitam significativamente a capacidade do país de financiar a recuperação e a reconstrução.

O acesso a financiamento externo também é limitado. Desde 2017, a Venezuela e a estatal petrolífera PDVSA estão em default em sua dívida externa, estimada pelo Financial Times em cerca de US$ 240 bilhões — o que fechou, na prática, o acesso do país aos mercados internacionais de capital.

Embora Calixto Ortega, vice-presidente para a Área Econômica, presidente do Banco de Venezuela e governador da Venezuela junto ao Fundo Monetário Internacional, tenha afirmado que as negociações para reestruturar a dívida externa do país continuam apesar da emergência, o economista venezuelano Leonardo Vera argumenta que a reestruturação da dívida sozinha não vai fornecer os recursos necessários para a reconstrução. Em vez disso, ele aponta para mecanismos alternativos de financiamento, incluindo fundos dedicados de reconstrução, assistência financeira multilateral e doações tanto internacionais quanto internas.

O governo já anunciou algumas iniciativas iniciais de financiamento. A presidente interina Delcy Rodríguez apresentou um fundo de reconstrução com alocação inicial de US$ 200 milhões, provenientes de ativos venezuelanos junto ao FMI, destinado a financiar a reconstrução de moradias, infraestrutura e hospitais. Da mesma forma, o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) criou um fundo para mobilizar recursos públicos, privados e internacionais em apoio à resposta emergencial e à reconstrução de longo prazo.

Apesar desses anúncios, os recursos comprometidos até agora seguem sendo apenas uma pequena fração dos valores que as estimativas preliminares sugerem serem necessários para reconstruir totalmente as regiões afetadas e restaurar a atividade econômica.

Global Voices

Conteúdo republicado — por Mario Valdivia

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