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Organizadores venezuelanos com a equipe de resgate Topos Azteca, reconhecida por sua experiência em resposta a terremotos e desabamentos de prédios, no Aeroporto Internacional Benito Juárez, com caixas e sacolas cheias de suprimentos médicos, materiais essenciais e equipamentos de resgate. Foto cedida pelos organizadores. Usada com permissão.
Quando terremotos devastadores atingiram a Venezuela, a resposta se estendeu muito além das fronteiras do país. Por toda a América Latina e além, venezuelanos que vivem no exterior se mobilizaram em questão de horas, arrecadando fundos, organizando voluntários e construindo redes de confiança para levar ajuda diretamente aos sobreviventes.
No México, onde décadas de preparação para terremotos cultivaram uma poderosa cultura de solidariedade cívica, a migrante venezuelana, produtora e pesquisadora antirracista Mariana Álvarez Castillo ajudou a liderar um esforço de ajuda de base comunitária ao lado das comunidades La Pitahaya Vegana, Masala CCS e Levantemos la Casa. Por meio de uma rede rapidamente montada de voluntários, doadores e parceiros locais de confiança, eles levaram ajuda urgentemente necessária diretamente aos afetados.
Nesta entrevista, Álvarez reflete sobre o enorme esforço da equipe, sobre como a diáspora venezuelana transformou a dor em ação coletiva, sobre os desafios de coordenar ajuda humanitária além das fronteiras e sobre o que essa mobilização notável revela sobre a resiliência, a solidariedade e a identidade em transformação dos venezuelanos ao redor do mundo.
Gabriela Mesones Rojo (GMR): O que motivou vocês a se organizarem tão rapidamente depois dos terremotos?
Mariana Álvarez Castillo (MÁC): Além do choque e da dor óbvios de saber que tantos danos irreversíveis haviam ocorrido em questão de segundos, acho que viver em um país sísmico como o México nos ensinou o quão críticas são as primeiras horas depois de um desastre como esse. Diante de um evento dessa magnitude, a resposta precisa ser imediata.
Aqui, a memória coletiva dos terremotos de 1985 e 2017 ainda está muito viva. Esses eventos fazem parte da história recente do México e levaram ao desenvolvimento de protocolos, sistemas de alerta antecipado, simulados e diretrizes de emergência. Por causa disso, entendemos rapidamente que a escala da catástrofe na Venezuela seria devastadora.
Também sabemos que nosso país, a Venezuela, não está preparado para lidar com terremotos como esses.
Poucas horas depois do terremoto, relatos de La Guaira começaram a surgir, e, na manhã seguinte, já estávamos tomando decisões sobre como nos organizar. No mesmo dia, lançamos nossa iniciativa, e, em sete horas, já havíamos entregado suprimentos, refeições e água potável limpa a quatro hospitais públicos, graças à resposta avassaladora dos doadores. Na mesma semana, também estabelecemos um centro de coleta na La Pitahaya Vegana, viabilizado por uma rede incrível de voluntários.
GMR: O que essa mobilização revela sobre a Venezuela que existe além de suas fronteiras?
MÁC: Os migrantes venezuelanos estão aprendendo a construir comunidade fora do nosso país. Diferentemente de países como México, Porto Rico ou China, cujas histórias de migração abrangem gerações e produziram comunidades bem estabelecidas no exterior — como os mexicanos em Chicago ou na Califórnia, ou os porto-riquenhos em Nova York —, nós não temos uma tradição migratória de longa data para nos apoiarmos. Estamos criando essa memória coletiva agora.
A migração nessa escala é um fenômeno recente na história da Venezuela, então nem sempre é fácil se organizar ou saber a melhor forma de responder. Mas, neste caso, diferentes pequenos grupos rapidamente chegaram à mesma conclusão: precisávamos enviar dinheiro para o que fosse mais urgente — água, ferramentas, suprimentos médicos, remédios e, mais recentemente, materiais de fixação ortopédica para sobreviventes com ferimentos graves causados por prédios desabados.
Há também um profundo sentimento de culpa que vem de estar longe, e até mesmo de estar seguro. Quando você não pode estar lá para apoiar seus entes queridos em um momento tão horrível, a melhor resposta é a ação: encontrar uma forma de resolver alguma coisa, por menor que seja; contribuir com algo, por mais insignificante que pareça.
À esquerda: um centro de coleta na La Pitahaya Vegana, onde os suprimentos doados eram recebidos, triados e classificados. À direita: voluntários organizam e catalogam materiais essenciais antes de serem enviados à Venezuela com a equipe de resgate Topos Azteca. Fotos dos organizadores. Usadas com permissão.
GMR: Qual foi o maior desafio para coordenar a ajuda a partir do México — arrecadação de fundos, logística ou construção de confiança?
MÁC: É importante dizer que vivenciar a solidariedade do povo mexicano tem sido profundamente comovente. Eles nos apoiaram doando, levando suprimentos a centros de coleta, se voluntariando em eventos de arrecadação de fundos, ajudando a viabilizar as viagens das brigadas de resgate dos Topos, e oferecendo palavras de apoio e abraços sinceros.
Sabemos que migrantes venezuelanos em outros países nem sempre vivenciaram o mesmo nível de empatia, e sentir-se sozinho e estrangeiro durante uma tragédia como essa pode ser de partir o coração.
Talvez o maior desafio para nós, como migrantes no México, seja exatamente o que muitas pessoas que viveram os terremotos gostariam de ter: não estar lá. Caminhar por ruas longe de casa, ir a lugares onde a vida parece seguir normalmente. Ir trabalhar e funcionar como se tudo estivesse normal. Encontrar forças para focar no presente. Tentar prestar atenção em qualquer coisa que não seja o fluxo incessante de notícias sobre os terremotos. Basicamente, fingir que estamos bem.
GMR: A Venezuela tem uma longa história de desconfiança em relação à ajuda humanitária. Como vocês estão garantindo transparência?
MÁC: Nós três somos amigos que trabalhamos com projetos acadêmicos e culinários. Ao longo desse processo, sustentamos a iniciativa com nossas identidades pessoais e nossas redes sociais, mas também por meio da Antroposabores, da Conuco e da La Pitahaya Vegana — projetos de base comunitária de confiança que passaram anos construindo redes fortes e profundamente comprometidas.
Desde o início, também fizemos parceria com o restaurante Masala CCS, em Caracas, que estava se preparando para abrir as portas ao público quando os terremotos aconteceram. Em vez disso, eles optaram por doar suas instalações, sua equipe e sua cozinha para preparar refeições para médicos, socorristas e sobreviventes.
Por meio dos voluntários deles, construímos uma rede em Caracas que permite que os recursos cheguem diretamente aos civis, sem intermediários ou burocracia. As doações vão diretamente a um membro de confiança da nossa rede em Caracas, que compra o que é necessário e entrega diretamente nos locais onde é preciso, evitando procedimentos alfandegários ou postos de controle que poderiam atrasar ou desviar a ajuda.
Também seguimos uma política rígida de prestação de contas: cada doação é registrada, cada recibo de compra é guardado, e fotos, vídeos e depoimentos são compartilhados em nossas redes sociais. Isso permite que cada doador veja exatamente como sua contribuição foi usada e o impacto direto que ela teve.
Mais recentemente, lançamos o ‘Levantemos la Casa’ (‘Vamos reerguer a casa’), uma série de eventos organizados pela comunidade venezuelana na Cidade do México, em que artistas, poetas, produtores, designers, cineastas e empreendedores doam seu trabalho para arrecadar fundos. Cada dólar vai diretamente para apoiar os afetados pelos terremotos, por meio de encontros culturais que fortalecem a comunidade ao mesmo tempo em que oferecem ajuda.
Os músicos Augusto Bracho e Laura Itandehui se apresentam na primeira edição do ‘Levantemos la Casa’, um evento cultural de arrecadação de fundos em apoio às comunidades afetadas pelos terremotos na Venezuela. O evento aconteceu na Librería Utópicas, em Coyoacán, Cidade do México. Foto dos organizadores. Usada com permissão.
GMR: Há algo no modelo mexicano de organização cívica que você gostaria de ver replicado na Venezuela?
MÁC: Não sou especialista no assunto, mas diria que o sistema mexicano de alerta antecipado de terremotos é algo que vale a pena replicar. Dependendo do epicentro do terremoto, o alarme pode soar até um minuto antes do início do tremor, dando às pessoas segundos preciosos para ativar protocolos de emergência que são ensinados nas escolas e reforçados por simulados nacionais realizados pelo menos uma vez por ano. Esses poucos segundos podem fazer uma diferença enorme e salvar vidas.
Eu também destacaria a ênfase do México em prevenção e segurança estrutural. Construir essa cultura não foi fácil; a história sísmica do México é marcada por uma dor tremenda. Mas essas experiências levaram tanto a sociedade quanto os especialistas a implementar regulamentações de construção mais rígidas, medidas de reforço e avaliações estruturais regulares.
Vimos como a falta de políticas preventivas e de infraestrutura resiliente deixou a Venezuela especialmente vulnerável. Neste momento, muitas vezes parece que os próprios cidadãos precisam se organizar coletivamente, além dos limites das instituições governamentais.











