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Esta reportagem faz parte do Undertones, newsletter e coluna do Observatório de Mídia Cívica da Global Voices. Assine o Undertones. A publicação é baseada em conversas com falantes de línguas maias da Rising Voices durante o Narrative Spotter Workshop do Observatório de Mídia Cívica.
O governo e o setor privado do México recorrem com frequência às identidades e símbolos das comunidades maias para promover o turismo no país. A Riviera Maya, o corredor turístico administrado pelo governo do estado de Quintana Roo na Península de Yucatán, é talvez o exemplo mais conhecido. Os sítios arqueológicos maias da região estão entre as principais atrações que a indústria do turismo, tanto nacional quanto internacional, destaca ao promover seus serviços.
O Tren Maya, a linha ferroviária que liga o sudeste do México, é um projeto emblemático. Ainda em construção, foi inaugurado pelo ex-presidente Andrés Manuel López Obrador (Movimento de Regeneração Nacional, ou MORENA) em dezembro de 2013, com a abertura de seus primeiros trechos. A iniciativa tem sido divulgada como um esforço que “celebra o ressurgimento da grande nação maia”, imergindo os visitantes no coração do sudeste mexicano. Conectando os estados de Chiapas, Tabasco, Campeche, Yucatán e Quintana Roo, o trem, segundo seu site oficial, apresenta um design inspirado na cultura maia, “nas cores e texturas da arte regional”.
A Travesía Sagrada (Jornada Sagrada), evento anual organizado e celebrado pelo consórcio turístico Grupo Xcaret, que a Secretaria de Turismo de Quintana Roo promoveu em 2025 como uma “experiência única que revive o antigo ritual maia ao atravessar o Mar do Caribe em canoas, em homenagem à deusa Ixchel”, é outro exemplo dessas referências a símbolos e identidades na promoção de serviços turísticos.
Narrativa: a cultura maia é uma ferramenta de marketing; é uma marca registrada Em março de 2024, o Grupo Xcaret divulgou um comunicado relatando uma reunião com o Grande Conselho Maia de Quintana Roo, na qual ambas as partes trataram do “uso, proteção e desenvolvimento do patrimônio cultural maia” no âmbito da Lei Federal de Proteção ao Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Indígenas e Afromexicanas:
… O Grupo Xcaret continuará a oferecer espaços adequados para que os portadores culturais (herdeiros e transmissores de tradições, conhecimentos e patrimônio vivo) compartilhem suas expressões culturais com dignidade, fomentando uma visão de prosperidade e valor compartilhado. Isso será sempre feito com absoluta observância à ética e à autodeterminação desses portadores, e mediante consentimento prévio, livre e informado, de acordo com seus costumes e tradições, dando crédito aos portadores e oferecendo compensação justa acordada entre ambas as partes.
O Grupo Xcaret apoiará projetos de pesquisa, preservação, proteção, promoção, valorização, revitalização, difusão e transmissão do Patrimônio Vivo que os Centros Cerimoniais optarem por compartilhar, incluindo, entre outros, a música Mayapaax, a formação de rezadores, cerimônias tradicionais, festas de santos padroeiros e a transmissão da medicina tradicional. Isso será feito respeitando a autodeterminação de cada Centro Cerimonial.
O acordo reconhece a “falta de implementação” das normas transitórias da Lei Federal de Proteção ao Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Indígenas e Afromexicanas, ao mesmo tempo em que busca o consentimento para que o Grupo Xcaret continue usando símbolos e identidades maias em seus diversos empreendimentos. Um deles é o Xcaret Park, parque temático que oferece espetáculos como a Travesía Sagrada.
Com esse acordo — que, segundo relatos, envolveu uma compensação de 15 milhões de pesos mexicanos (pouco mais de US$ 857 mil) —, o Grupo Xcaret, junto com o Grande Conselho Maia de Quintana Roo, compartilha uma narrativa que atribui valor comercial aos símbolos e identidades maias, transformando-os, em seu discurso, em um elemento transacional.
Há mais de 30 anos, como mencionado no documento de 2024, o Grupo Xcaret usa símbolos e identidades maias em suas estratégias comerciais, afirmando implicitamente que esses símbolos e identidades constituem uma marca registrada.
Captura de tela de uma publicação no Instagram do Xcaret Park; uso justo (fair use). A legenda da publicação diz: “O som do búzio anuncia o início de um espetáculo ancestral. Deixe o misticismo do copal e dos tambores te imergir na Vila Maia.”
O contexto por trás da narrativa O acordo entre o Grupo Xcaret e o Grande Conselho Maia de Quintana Roo vem na esteira da denúncia apresentada em 2022 por este último ao Instituto Nacional do Direito de Autor (Indautor) contra o consórcio turístico, por apropriação do patrimônio cultural maia. O caso chegou à Suprema Corte de Justiça da Nação (SCJN), que, após um recurso fazendo referência ao acordo de 2024 entre as partes, decidiu em março de 2026 que o Grupo Xcaret deveria remover conteúdos publicitários que usassem elementos do patrimônio cultural maia. Segundo o comunicado da SCJN, “o patrimônio cultural material e imaterial pertence coletivamente aos povos e comunidades indígenas e, portanto, sua proteção é uma questão de ordem pública e interesse social.”
Em abril de 2026, o Grande Conselho Maia de Quintana Roo manifestou seu descontentamento com a decisão da SCJN, acusou a corte de lhes negar uma audiência para defender as ações do Grupo Xcaret e reafirmou o acordo firmado em 2024.
O Grande Conselho Maia de Quintana Roo é um órgão de representação indígena, criado pelo estado de Quintana Roo em 1998. Segundo um artigo de Hilda Landrove Torres na revista online Maya América, a instituição tem sido marcada por conflitos e pressões políticas. Ela foi criada durante o governo de Mario Ernesto Villanueva Madrid (então filiado ao Partido Revolucionário Institucional, ou PRI), que priorizou o desenvolvimento do turismo na Riviera Maya. Críticos do governo de Villanueva Madrid afirmam que ele articulou sindicatos e associações a seu favor, incluindo o Grande Conselho Maia de Quintana Roo, para garantir o crescimento da indústria turística do estado. O mandato de Villanueva Madrid terminou em 1999, e ele foi preso anos depois sob acusações de vínculos com o narcotráfico — acusações que, segundo ele, decorrem de sua recusa em apoiar os interesses comerciais da família do ex-presidente Ernesto Zedillo (também ligado ao PRI) na Riviera Maya.
O posicionamento do Grande Conselho Maia de Quintana Roo como representante da comunidade foi impulsionado em 2016 pelo então governador eleito Carlos Joaquín González (atualmente embaixador do México no Canadá), filiado ao Partido da Revolução Democrática (PRD). Segundo os defensores do conselho, sua legitimidade emana de seus membros, os generais e sacerdotes maias que representam cada um dos cinco centros cerimoniais localizados no estado de Quintana Roo. O conselho é atualmente liderado por Simón Caamal Coh, que em abril de 2026 negou ter recebido os 15 milhões de pesos mexicanos previstos no acordo com o Grupo Xcaret, tornado público em março de 2024.
O Instituto Nacional dos Povos Indígenas (INPI) reconhece um grupo separado de representantes da comunidade maia em Quintana Roo, que manifestaram discordância em relação às ações do Grande Conselho Maia de Quintana Roo e estão exigindo uma auditoria dos 15 milhões de pesos mexicanos supostamente concedidos pelo Grupo Xcaret.
Atualmente, as comunidades maias estão estabelecidas em uma vasta área geográfica que abrange a Guatemala, Belize, o oeste de El Salvador e Honduras, além dos estados mexicanos de Chiapas, Tabasco, Campeche, Yucatán e Quintana Roo. Por se tratar de uma região cultural, esse território transcende as fronteiras nacionais e estaduais e, portanto, não pode ser definido apenas por elas. Cada comunidade maia tem sua própria língua, cosmovisão e tradições.
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