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Direitos Humanos

O caso de Shakira Galíndez expõe crise crescente para venezuelanas trans que buscam asilo nos EUA

7 min de leitura

Shakira Galíndez em Nova York (fevereiro de 2025). Foto de José Miguel Pareja. Usada com permissão.

Este texto faz parte da série especial de junho de 2026 do Global Voices, “Diversidade de Gênero”. A série oferece um panorama sobre diversidade de gênero e como ela vem sendo ameaçada, protegida e preservada ao redor do mundo. Você pode apoiar essa cobertura fazendo uma doação aqui.

Quando Shakira Galíndez compareceu à sua audiência de imigração, ela estava tentando cumprir o processo legal dos Estados Unidos. Em vez disso, foi imediatamente detida pelo ICE, a agência de imigração e alfândega americana.

Desde então, a mulher trans venezuelana de 30 anos passou meses circulando pelo sistema de detenção migratória dos EUA enquanto luta para evitar a deportação. Sua história vai além dela mesma: envolve a família e os amigos afetados por sua detenção arbitrária, e evidencia a disparidade crescente entre as proteções formalmente garantidas a refugiados vulneráveis e as condições que eles frequentemente encontram ao chegar.

Para muitos venezuelanos LGBTQ+, migrar costuma ser uma questão de sobrevivência. Diante de discriminação, criminalização, violência, exclusão do mercado de trabalho, barreiras no acesso à saúde e ausência de reconhecimento legal de suas identidades, muitos venezuelanos trans e de gênero diverso são forçados a deixar suas casas em busca de segurança e dignidade.

Galíndez é uma mulher trans de 30 anos, natural de Yaracuy, Venezuela. Ela chegou aos Estados Unidos buscando asilo depois de fugir de condições que tornavam cada vez mais difícil viver com segurança como mulher trans em seu país de origem. Como muitos solicitantes de asilo, ela entrou num processo legal desenhado para avaliar seu pedido e determinar se devolvê-la à Venezuela a exporia a riscos.

Ela foi presa enquanto participava de uma audiência de imigração e, na sequência, transferida por diversos centros de detenção. Hoje, ela permanece detida no Centro de Detenção LaSalle e enfrenta a possibilidade de deportação de volta à Venezuela.

Seu caso expõe uma contradição mais ampla no centro do sistema de detenção migratória dos EUA. Desde 2015, agências federais reconhecem que pessoas trans em detenção enfrentam riscos específicos. Os padrões de detenção do ICE e as políticas influenciadas pela Lei de Eliminação do Estupro em Prisões (PREA, na sigla em inglês) reconhecem que decisões de alojamento envolvendo pessoas trans devem ser tomadas caso a caso, com atenção particular à identidade de gênero — especialmente porque pessoas trans encarceradas relataram níveis mais altos de má conduta sexual por parte de funcionários em prisões (17%) e cadeias (23%).

No papel, essas proteções existem.

O fotógrafo José Miguel Pareja documentou a jornada migratória de Shakira e sua experiência como mulher trans detida. Os dois trocaram dezenas de cartas sobre o tratamento que ela enfrenta no centro de detenção e as irregularidades ao redor do caso. Foto de José Miguel Pareja, 2025. Usada com permissão.

Na prática, porém, defensores de direitos humanos e organizações da sociedade civil documentaram repetidamente situações em que migrantes trans permanecem expostos a isolamento, maus-tratos, assistência à saúde inadequada ou condições de detenção que não refletem sua identidade de gênero. As condições pioraram durante o segundo mandato de Donald Trump, com relatos de aumento nesse tipo de violação. Uma de suas primeiras ações como presidente foi uma ordem executiva contra o que ele chamou de “extremismo da ideologia de gênero”, determinando o reconhecimento federal de apenas dois sexos, colocando mulheres trans em prisões masculinas e cortando o financiamento de cuidados de afirmação de gênero para pessoas presas.

A experiência de Shakira é apenas parte desse padrão mais amplo.

A natureza prolongada de sua detenção, as transferências entre unidades e sua colocação num ambiente de detenção masculino levantaram sérias preocupações entre família, amigos e defensores que atuam em seu favor.

Os relatos de isolamento são particularmente alarmantes. Galíndez afirma que ficou em confinamento solitário por mais de um mês antes de pedir para ser transferida à população geral da prisão, apesar dos riscos que isso implicava. Segundo um estudo recente, quase 90% das pessoas trans encarceradas já passaram por confinamento solitário na prisão — uma prática classificada como tortura por especialistas em direitos humanos.

Independentemente do desfecho legal do pedido de asilo de Galíndez, essas condições ilustram como a própria detenção pode se tornar uma fonte de dano para migrantes trans.

Para Galíndez, a deportação significaria retornar a um país onde pessoas trans continuam enfrentando barreiras estruturais significativas. A Venezuela atualmente não tem um marco legal abrangente que reconheça a identidade de gênero ou proteja pessoas trans da discriminação. Organizações da sociedade civil documentaram padrões persistentes de violência, exclusão social e barreiras no acesso à saúde, ao emprego e ao reconhecimento legal.

Nas Américas, a crise política, econômica e humanitária da Venezuela gerou um dos maiores movimentos de deslocamento do mundo. Dentro dessa população deslocada, pessoas LGBTQ+ frequentemente enfrentam camadas adicionais de vulnerabilidade. Elas podem sofrer rejeição familiar, falta de moradia, barreiras no emprego, exploração e violência direcionada, tanto antes quanto durante a migração. Essa realidade é particularmente importante na hora de avaliar pedidos de asilo.

Em um relatório de 2020, o ReliefWeb destacou como o deslocamento de venezuelanos LGBTQ+ forma uma das camadas mais complexas de uma crise migratória já profunda, e que os muitos riscos aos quais eles são expostos não terminam com a migração. Como explica o relatório:

A maioria da [população LGBTQ+] enfrenta ou já enfrentou situações de exploração, abuso e desigualdade, entre outras formas de violência. Além disso, atitudes discriminatórias e xenofóbicas os afetaram de diferentes maneiras. Por exemplo, mulheres trans sofreram uma violação maior de seus direitos e falta de proteção, enquanto pessoas LGB tiveram que esconder sua orientação sexual para evitar discriminação.

O propósito da lei de asilo é oferecer proteção a pessoas que têm um temor fundado de perseguição com base em fatores como opinião política, religião, nacionalidade, raça ou pertencimento a um determinado grupo social. Pessoas trans que fogem de discriminação e violência sistêmicas frequentemente buscam proteção sob esse marco legal, porque voltar para casa pode expô-las a riscos graves.

“Ser queer na Venezuela significou crescer sob a ameaça constante de exclusão, violência corretiva e abandono”, explica Andrés Perez, ativista não-binário exilado na Colômbia, em mensagem ao Global Voices. “Para muitas pessoas na comunidade LGBTQIA+, migrar não é uma decisão sobre o futuro, mas uma forma de proteger nossas vidas no presente.”

Retrato de Shakira Galíndez e trechos de suas cartas, por José Miguel Pareja (2025). Usada com permissão.

O caso de Shakira não é um episódio isolado. Ele ecoa preocupações levantadas no caso de Andry Hernández Romero, outro migrante venezuelano LGBTQ+ cuja experiência chamou a atenção de defensores de direitos humanos e organizações da sociedade civil após sua transferência para o CECOT, a infame prisão de El Salvador, e sua posterior deportação para a Venezuela. Embora as circunstâncias sejam diferentes, os dois casos ilustram uma realidade preocupante: venezuelanos LGBTQ+ que buscam proteção nos Estados Unidos podem se ver navegando sistemas que falham em reconhecer adequadamente suas vulnerabilidades.

Enquanto o caso segue em andamento, defensores pedem sua libertação da detenção e uma avaliação justa de seu pedido de asilo. As reivindicações se baseiam num princípio simples: pessoas que buscam proteção contra perseguição não deveriam ser submetidas a condições que as coloquem em risco ainda maior.

Global Voices

Conteúdo republicado — por Gabriela Mesones Rojo

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