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Muitas pessoas apátridas de origem vietnamita vivem em casas flutuantes no lago Tonle Sap. Foto de Esin Üstün. Fonte: Wikipedia. CC BY 2.0.
Milhares de vietnamitas étnicos que vivem no Camboja continuam a enfrentar discriminação, e muitos são considerados apátridas por não terem documentos que comprovem sua cidadania. Pessoas apátridas podem enfrentar barreiras para acessar serviços estatais, atendimento médico, educação, casamento, e ficam impossibilitadas de viajar, entre outros problemas.
Um censo governamental de 2019 registrou 78.090 pessoas cuja língua materna era o vietnamita. O Ministério do Interior afirmou que havia 180.690 “nacionais vietnamitas” residindo no Camboja. Mas grupos da sociedade civil estimam que a população étnica vietnamita no país seja de cerca de 400 mil a 700 mil pessoas. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) citou um relatório do governo que listava 75 mil pessoas apátridas, a maioria delas de origem étnica vietnamita.
Vietnã e Camboja são dois Estados vizinhos no Sudeste Asiático com uma história longa e complicada. Ocupações coloniais, a Guerra Fria e conflitos internos causaram evacuações em massa e uma fronteira porosa entre os dois países. Durante o governo do Khmer Vermelho, entre 1975 e 1979, a população vietnamita foi atacada e forçada a fugir do Camboja. Em seguida, o Vietnã ocupou o Camboja por uma década, o que despertou um forte sentimento antivietnamita na sociedade cambojana. Muitos políticos consideram os vietnamitas étnicos “imigrantes ilegais”.
Um relatório da Women Peace Makers e da Nationality For All, divulgado em junho de 2024, identificou os obstáculos enfrentados pelos vietnamitas étnicos para obter cidadania no Camboja.
“O grupo que mais luta para comprovar seu pertencimento é o dos residentes de longa data no Camboja de ascendência vietnamita — especialmente aqueles que vivem no Camboja há gerações e desde antes da criação do Estado vietnamita moderno —, muitos dos quais são apátridas ou correm risco de apatridia, por não terem prova de nacionalidade cambojana nem vietnamita.”
O relatório acrescentou que os vietnamitas étnicos não têm acesso efetivo a registros de nascimento e outros registros civis, enfrentam barreiras legais devido a mudanças nas políticas governamentais de naturalização e continuam sofrendo preconceito na sociedade.
Em uma reportagem publicada em 2020, o site LiCAS.news mostrou o depoimento de várias pessoas que evidenciam a situação precária dos vietnamitas étnicos apátridas no Camboja. Anh Nguyen, que nasceu no Camboja, relatou a discriminação dirigida a ele e a outras pessoas de origem étnica vietnamita.
“Eu realmente gostaria de ter a cidadania cambojana. Isso tornaria minha vida mais fácil, eu poderia ir a qualquer lugar sem problemas, mas não querem me dar. Agora preciso pagar para garantir que eu e minha família possamos continuar aqui. Quando falamos khmer, eles nos ofendem e nos chamam de ‘yuon’ [termo depreciativo usado para se referir a vietnamitas]. Isso me deixa com raiva, mas não posso fazer nada a respeito. E sabe de uma coisa? Às vezes dizem que viemos para tomar a terra deles. Mas como poderíamos fazer isso? Não temos nada aqui.”
O LiCAS.news também entrevistou Giang Duong, que narrou as dificuldades que enfrentou para conseguir um passaporte cambojano.
“Eu nasci no Camboja e tenho cidadania cambojana, mas, como meus pais eram vietnamitas, é muito difícil para mim conseguir um passaporte cambojano. Dizem que eu deveria primeiro falar um khmer correto, porque tenho sotaque vietnamita. Não estou satisfeita com isso. Eu deveria conseguir o passaporte, porque tenho todos os documentos exigidos.”
Em 2024, Mai Nguyen fez seu estágio para o Centro de Justiça Global da Regent University imergindo em comunidades étnicas vietnamitas no Camboja. Ela citou uma senhora idosa que expressou seu sonho de um futuro melhor para a família.
“Queremos educação para nossos filhos. Já estamos velhos. Podemos morrer apátridas e sem instrução, mas as crianças têm a vida toda pela frente. Depois vem um lugar seguro e estável para morar. Até os pássaros têm ninhos, e eu não consigo dar aos meus filhos um lugar para chamar de lar!”
O padre Tran Dinh Thuc, ex-refugiado, passou um tempo no Camboja neste ano e pediu às autoridades que também reconheçam como cidadãos os descendentes de vietnamitas.
“A grande maioria das pessoas apátridas no Camboja é de origem vietnamita, somando cerca de 77 mil pessoas. Elas não são nem vietnamitas nem cambojanas. Não sabem ler vietnamita e não conhecem o khmer. São privadas de todos os direitos civis e vivem em extrema pobreza. Muitas residem no lago Tonle Sap, ao sul de Siem Reap. Minha única esperança é que o governo cambojano mude sua política e conceda cidadania a essas 77 mil pessoas apátridas. Ao fazer isso, essas pessoas poderão participar livremente da sociedade e cumprir seus deveres e responsabilidades para com o país.”
Sovinda Po, pesquisador visitante do Programa de Estudos sobre o Vietnã no ISEAS – Yusof Ishak Institute, de Cingapura, escreveu que um passo à frente é promover inclusão e compreensão para enfrentar o preconceito antivietnamita no Camboja.
“Daqui para frente, enfrentar de forma eficaz os sentimentos antivietnamitas no Camboja exige uma abordagem sutil e multifacetada, que vá além de ações políticas de curto prazo. É necessário fomentar uma narrativa de inclusão genuína e de aspirações compartilhadas para o futuro, que promova respeito mútuo, empatia e compreensão.”











