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Lixo e dignidade: a ascensão de projetos de reciclagem inclusivos na América Latina

8 min de leitura

Livros da Eloísa Cartonera, feitos por trabalhadores em situação de rua. Embora o projeto tenha nascido na Argentina, ele se expandiu para outros países latino-americanos, como Peru, Equador, Chile e Colômbia. (Creative Commons)

Esta reportagem faz parte da série Spotlight de maio de 2026 do Global Voices, “Crise global, soluções locais”. Você pode apoiar esta cobertura fazendo uma doação aqui.

Na América Latina, a reciclagem desempenha um papel social e econômico muito mais crítico do que as médias globais podem sugerir. Apesar dos avanços mundiais na gestão de resíduos, a taxa média de reciclagem da região permanece surpreendentemente baixa — cerca de quatro por cento. Ainda assim, dentro desse sistema formal limitado, estima-se que dois milhões de pessoas sobrevivam da reciclagem informal, formando uma espinha dorsal essencial, mas muitas vezes invisível, da recuperação de resíduos urbanos.

Para muitos desses trabalhadores, a reciclagem é mais do que uma prática ambiental: é um meio de sobrevivência. Mulheres, migrantes, populações deslocadas e pessoas em situação de rua vivendo em condições urbanas precárias estão entre os que dependem da coleta, triagem e venda de materiais recicláveis para sustentar seu dia a dia. Nesse contexto, o lixo se torna, ao mesmo tempo, um recurso e uma tábua de salvação.

Então, como diferentes iniciativas pela região apoiam essas comunidades? E como projetos voltados à reciclagem podem ir além dos benefícios ambientais para promover dignidade, gerar renda e abrir caminhos de inclusão social para algumas das pessoas mais vulneráveis nas cidades da América Latina?

Eloísa Cartonera: livros feitos por cartoneros na Argentina Eloísa Cartonera é um dos projetos editoriais independentes mais distintos da América Latina. Fundado em Buenos Aires em 2002, durante a devastadora crise econômica da Argentina, a iniciativa surgiu em um momento de desemprego em massa, agitação social e pobreza crescente após o colapso do país em 2001.

O projeto trabalha com cartoneros (pessoas que coletam e vendem papelão descartado), muitos dos quais estão em situação de rua ou vivendo em condições precárias. A Eloísa Cartonera compra papelão a preços justos e emprega trabalhadores para confeccionar e pintar livros artesanalmente, transformando materiais reciclados em obras de arte únicas. Os lucros das vendas são divididos entre os trabalhadores e organizadores.

Fundado pelo escritor Washington Cucurto, pelo artista visual Javier Barilaro e por um grupo de artistas e ativistas, o coletivo também promove uma literatura acessível ao publicar autores latino-americanos, tanto emergentes quanto consagrados, muitos dos quais doam seus direitos autorais para apoiar o projeto.

Cada livro é pintado individualmente com têmpera colorida, o que faz com que nenhum exemplar seja igual ao outro. Mais de duas décadas depois, a Eloísa Cartonera já inspirou mais de 50 editoras cartoneras semelhantes ao redor do mundo.

Amazoniko: de recicladores a líderes ambientais urbanos na Colômbia A equipe da Amazoniko coleta materiais recicláveis depois de ensinar os moradores das comunidades a separar e triar seus resíduos. Foto da Amazoniko. Usada com permissão.

A Amazoniko nasceu em 2017 com uma ideia que vai muito além da reciclagem. Para seu fundador, Daniel Rodríguez Paredes, o problema nunca foi apenas o lixo em si, mas a perda de todo o valor ambiental, econômico e humano por trás de cada resíduo. “Quando um material acaba enterrado ou descartado de forma inadequada, não se perde apenas um objeto, mas também água, energia, trabalho humano e recursos naturais”, explicou ele ao Global Voices, por telefone. O que começou como uma plataforma para facilitar a reciclagem doméstica acabou se tornando um modelo de economia circular que conecta cidadãos, empresas, recicladores e processadores.

Na Colômbia, milhares de recicladores trabalham em condições informais, muitas vezes sem contrato, previdência social ou reconhecimento. Diante dessa realidade, a Amazoniko decidiu colocar as pessoas no centro do sistema. O projeto busca entender as necessidades de quem sustenta a cadeia de reciclagem todos os dias: das famílias que precisam de educação ambiental aos recicladores que precisam de melhores condições de trabalho e estabilidade econômica. A plataforma organiza rotas de coleta, melhora o acesso a materiais de qualidade e promove uma narrativa diferente em torno do reciclador, que deixa de ser visto como alguém marginalizado para ser reconhecido como um “consultor ambiental” dentro das comunidades. Além de melhorar a renda e a estabilidade, a Amazoniko promove incentivos como gorjetas digitais e microcréditos vinculados ao desempenho dos recicladores.

O impacto humano do projeto se reflete em histórias como a de Cristian, o primeiro reciclador da Amazoniko. Ele começou pedalando pela cidade para coletar materiais recicláveis e ajudou a construir o sistema com base em sua experiência diária. Hoje, é diretor de operações da empresa e uma das figuras mais importantes da operação. Para Daniel, a história de Cristian mostra que a inclusão social não se resume a conectar pessoas vulneráveis a um projeto, mas envolve reconhecer suas capacidades, abrir oportunidades reais de crescimento e dignificar um trabalho historicamente estigmatizado.

Migrantes venezuelanos reciclam para sobreviver Para muitos migrantes venezuelanos na Colômbia, a reciclagem se tornou um importante meio de sobrevivência e integração econômica. A Colômbia abriga uma das maiores populações de refugiados e migrantes venezuelanos do mundo, com mais de três milhões de pessoas tendo cruzado a fronteira nos últimos anos em busca de segurança, emprego e acesso a serviços básicos. Diante das barreiras ao emprego formal, muitos migrantes recorrem ao trabalho informal, incluindo a coleta e venda de materiais recicláveis.

Nos bairros do sudeste de Barranquilla, como Brisas del Río, a reciclagem é fonte de renda tanto para famílias colombianas quanto venezuelanas que vivem em condições de vulnerabilidade. Desde 2019, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), em conjunto com a Pastoral Social Cáritas Barranquilla e com apoio da Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS), tem implementado programas voltados a dignificar o trabalho dos recicladores ambientais. A iniciativa inclui capacitação, equipamentos de proteção e serviços de apoio para os trabalhadores da reciclagem e suas famílias.

Como muitos assentamentos informais em toda a Colômbia, Brisas del Río enfrenta desafios significativos, incluindo acesso inadequado à água, saneamento, transporte, saúde e educação. Nesse contexto, a reciclagem funciona não apenas como uma atividade de gestão de resíduos, mas também como um caminho para o sustento, a integração comunitária e a resiliência das populações deslocadas.

Desde 2022, 45 recicladores receberam treinamento e materiais de segurança para realizar seu trabalho de forma mais eficaz e com menos riscos à saúde. Como explicou uma participante no site do projeto, “a reciclagem é hoje nossa forma de nos sustentar”. Para muitos migrantes venezuelanos, coletar materiais recicláveis representa uma fonte vital de renda diária em comunidades onde a pobreza, a informalidade e o acesso limitado a serviços públicos ainda são generalizados.

No Equador, 70% dos recicladores são mulheres A reciclagem desempenha um papel crucial, mas frequentemente subvalorizado e estigmatizado na sociedade, apesar de ser essencial para a transição rumo a uma economia circular. As pessoas que trabalham como catadoras de rua — em sua maioria mulheres — formam o primeiro elo da cadeia de recuperação, coletando e separando materiais que contribuem diretamente para a limpeza urbana e o reaproveitamento de recursos.

No Equador, cerca de 20 mil pessoas trabalham como recicladoras, 1.500 delas organizadas por meio da Rede Nacional de Recicladores do Equador (Renarec), que reúne sob seu guarda-chuva mais de 50 organizações dedicadas a reduzir o desperdício e proteger trabalhadores de rua e recicladores contra a precariedade.

Segundo relato da ONU Equador, a experiência de Dona Blanca Lara, recicladora em Quito, ilustra essa realidade. Após uma vida marcada por dificuldades e pela responsabilidade de cuidar da família, ela e sua filha dependem inteiramente da reciclagem para sobreviver, obtendo rendas pequenas e variáveis conforme o tipo de material coletado. Apesar de sua contribuição para a sustentabilidade ambiental, elas enfrentam discriminação, condições de trabalho inseguras e proteção social limitada.

Por todo o Equador, milhares de recicladores compartilham experiências semelhantes, marcadas por altos níveis de informalidade e desigualdade de gênero. Embora seu trabalho seja essencial para a gestão de resíduos e a recuperação ambiental, ele permanece amplamente invisível, o que evidencia a necessidade de maior reconhecimento, apoio institucional e conscientização social sobre sua contribuição econômica e ambiental.

Global Voices

Conteúdo republicado — por Gabriela Mesones Rojo

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