
De Kharkiv ao sistema de saúde do Reino Unido: médica ucraniana reconstrói a vida — e ajuda outros a fazer o mesmo
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Foi no dia em que as forças russas lançaram sua invasão em larga escala da Ucrânia que Inna perdeu a vida que havia passado décadas construindo — sua carreira como reumatologista, sua casa e sua sensação de segurança.
Três anos depois, com a guerra ainda em curso na Ucrânia e bombas ainda explodindo em Kharkiv, ela volta a exercer medicina em Londres e ajuda outros profissionais de saúde refugiados a se firmarem no Reino Unido.
“Antes da guerra, eu achava que tinha alcançado tudo o que queria”, disse ela. “Eu tinha minha carreira, minha família, minha casa. Nunca passou pela minha cabeça ir embora.”
A história de Inna acompanha a trajetória de mais de 260 mil ucranianos que encontraram segurança no Reino Unido após a invasão — uma jornada marcada por perda, resiliência e o poder transformador do acolhimento. Ela também mostra o que acontece quando refugiados qualificados recebem a chance de contribuir.
Quando a guerra estourou, com os combates se intensificando e prédios ao redor sendo destruídos, Inna e sua família — suas duas filhas, seus pais e seu gato — fugiram de Kharkiv com apenas alguns documentos e pertences, achando que voltariam para casa em poucos dias. Dirigindo por mais de 26 horas pela Ucrânia, Moldávia e Romênia, a família foi acolhida por desconhecidos que compartilharam comida, segurança e gentileza. “Ainda me lembro deles”, disse ela sobre os voluntários que decidiram ajudar. “Como parte da família.”
Depois de passar pela Bulgária e reencontrar amigos que havia conhecido anos antes em Londres, Inna chegou ao Reino Unido em maio de 2022 pelo programa Homes for Ukraine, uma iniciativa liderada pela comunidade que permite que pessoas em todo o Reino Unido acolham ucranianos fugindo da guerra, oferecendo moradia segura e a chance de reconstruir suas vidas.
Como muitas pessoas forçadas a fugir para outro país, Inna enfrentou barreiras para retomar sua profissão, incluindo desafios com o idioma e a falta de reconhecimento de suas qualificações. Ela começou em um cargo administrativo no Lewisham and Greenwich Trust, do sistema público de saúde do Reino Unido (NHS), no sudeste de Londres.
Seus colegas do NHS se tornaram o que ela chama de sua “família de trabalho”. Eles ajudaram com seu inglês, fortaleceram sua confiança e a incentivaram a fazer os exames necessários para exercer medicina no Reino Unido. “Eles acreditaram em mim muito mais do que eu mesma acreditava”, disse ela. Ela passou em todos os exames exigidos e voltou à reumatologia, sua especialidade, voltando a atender pacientes diretamente.
Dos mais de 260 mil ucranianos que chegaram ao Reino Unido desde a invasão, mais de 60 mil já estão empregados em diferentes setores da economia.
A jornada de Inna não parou por aí. Trabalhando ao lado de outros profissionais de saúde deslocados, ela ajudou a criar a Ukrainian Medical Charity, uma rede nacional que apoia médicos, enfermeiros e profissionais de saúde refugiados no acesso a oportunidades de emprego no NHS. Sua atuação também ajudou a moldar o Programa de Emprego para Refugiados do NHS, que auxilia refugiados de diversas origens a conseguir vagas em todo o sistema de saúde do Reino Unido.
“Os refugiados querem retribuir a este país, e temos o dever de acolhê-los também”, disse Kathleen, enfermeira especialista clínica em reumatologia e colega de Inna.
Hoje, Inna equilibra trabalho e vida familiar em Londres “como uma pessoa comum”, segundo ela mesma. O que mais fica com ela é o que viveu em diferentes países, novos bairros e corredores de hospitais: o poder do acolhimento. “Quando você é forçado a fugir, é como se suas raízes fossem cortadas”, diz Inna. “O NHS e as pessoas ao meu redor me ajudaram a criar novas raízes. Aquela estabilidade, aquela gentileza, muda tudo — como o sol brilhando no seu jardim.”










