Gestão territorial liderada por indígenas pode se tornar aliada da conservação da onça-pintada
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PAU BRASIL, Brasil — O líder indígena Fábio Titiah, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe relembra a noite em que percorreu a trilha até a aldeia Água Vermelha, na Terra Indígena (TI) Caramuru-Paraguassu. Por volta das 22h, ele conta que uma sombra surgiu da vegetação rasteira e atravessou a estrada. Surpreso, viu a pelagem brilhante e negra como a noite e reconheceu um dos animais mais raros da Mata Atlântica brasileira: uma onça-preta (Panthera onca).
Para Titiah, um dos 21 caciques da TI, localizada no sul da Bahia, o breve avistamento do felino foi um encontro espiritual e um sinal de mudanças em curso no território.
“Houve uma época em que a gente começou o processo de retomada do nosso território e encontrou uma boa parte da nossa terra transformada em pastos para gado”, disse Titiah à Mongabay, em sua casa no município de Pau Brasil, adjacente à TI, onde ele é vereador. “O nosso povo deixou uma boa parte dessas áreas voltarem a regenerar. E alguns animais que não se via por aqui antes, como a onça-pintada, começaram a aparecer.”
A transformação da TI Caramuru-Paraguassu foi possibilitada, em parte, pelo Ywy Ipuranguete (“terra bonita”, na língua tupi-guarani), um projeto do governo federal destinado a fortalecer e apoiar a gestão indígena em 15 territórios. Com base no reconhecimento das terras indígenas como vitais para a vida selvagem e os ecossistemas, o Ministério dos Povos Indígenas lançou a iniciativa para proteger cerca de 6 milhões de hectares de alguns dos biomas mais ameaçados do Brasil, incluindo áreas na Amazônia, no Pantanal, na Mata Atlântica, na Caatinga e no Cerrado.
A iniciativa, lançada em março de 2025, reúne autoridades governamentais, líderes indígenas e organizações financiadoras, e conta com US$ 9 milhões (R$ 45 milhões) provenientes do Fundo do Quadro Global de Biodiversidade (GBFF). O Fundo é um instrumento de financiamento para a conservação e restauração de ecossistemas, que faz parte do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado na 15ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica, realizada 2022 em Montreal, no Canadá.
De acordo com Ronaldo Morato e Rafael Hoogesteijn, especialistas em felinos de grande porte, o projeto Ywy Ipuranguete também pode beneficiar a conservação da onça-pintada nos territórios abrangidos. Alguns dos principais pontos críticos remanescentes das populações de onça-pintada estão localizados em terras indígenas.
“A onça é um animal sagrado”, diz Titiah. “É muito importante para nós, considerado um dos espíritos do mundo dos animais, um espírito muito forte, que fortalece, que dá agilidade e habilidade.”
A onça-pintada historicamente habitava uma vasta área do continente americano, desde o que hoje é o sudoeste dos Estados Unidos até o norte da Argentina. Atualmente, o felino é considerado extinto ou possivelmente extinto em cerca de 47% de sua área de distribuição histórica na América do Sul. Ele é classificado como quase ameaçado na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), devido à pressão causada pela perda de habitat, pelo esgotamento de suas espécies de presas e pela caça ilegal.
O Brasil abriga aproximadamente metade das onças-pintadas do mundo, com redutos na Amazônia e no Pantanal. Mas as populações do felino na Mata Atlântica, no Cerrado e na Caatinga, biomas integrantes da iniciativa Ywy Ipuranguete, caíram para apenas algumas centenas de indivíduos e são consideradas criticamente ameaçadas.
Idealmente, segundo Hoogesteijn, que é membro do Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN, as onças-pintadas precisam de habitats com a maior estabilidade ecológica possível, tornando as áreas protegidas essenciais para sua sobrevivência em longo prazo.
“As onças-pintadas são mamíferos muito adaptáveis e conseguem se ajustar a diversas condições ambientais, mas essas condições determinam a densidade das presas na natureza e o tamanho das áreas de distribuição das onças-pintadas”, afirma ele. “O problema é que, em toda a América Latina, a perda de habitat está se acelerando; por isso, é muito importante manter intactas as áreas protegidas, sem desmatamento, e os corredores entre elas, a fim de preservar a conectividade genética das populações.”
Nos últimos anos, também tem crescido o reconhecimento do papel das terras indígenas como redutos da onça-pintada. Na Amazônia, metade da população da espécie e as principais áreas para sua conservação estão em terras indígenas, segundo Morato. Ele também integra o Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN e é diretor no Brasil da ONG Panthera, dedicada à conservação de felinos selvagens.
“A densidade populacional das onças-pintadas é maior em terras indígenas, que geralmente apresentam taxas de desmatamento mais baixas e maior conectividade ecológica do que áreas protegidas não indígenas”, ressalta Morato.
De acordo com um estudo de 2023, oito das dez áreas protegidas de maior prioridade na Amazônia brasileira para a conservação da onça-pintada são terras indígenas: Arariboia (MA), Apyterewa (PA), Cachoeira Seca (PA), Kayapó (PA), Marãiwatsédé (MT), Uru-Eu-Wau-Wau (RO), Parque Indígena do Xingu (MT) e Yanomami (AM e RR). As outras duas são a Estação Ecológica Terra do Meio (AM) e o Parque Nacional do Mapinguari (AM).
Morato e Hoogesteijn afirmam que esperam que o Ywy Ipuranguete — e o financiamento e os recursos que o sustentam — sirvam como uma camada adicional de apoio aos esforços indígenas já existentes para proteger a espécie. A TI Kayapó, um ponto-chave para a conservação da onça-pintada, também faz parte do Ywy Ipuranguete.
O projeto se concentrará em terras indígenas nos estados do Pará, Mato Grosso do Sul, Ceará, Pernambuco e Bahia. Entre os povos originários envolvidos estão os Munduruku, Pataxó, Kayapó, Guarani-Kaiowá, Pankararu, Tremembé, Terena e Kadiwéu.
Até o momento, há pouca ou nenhuma ligação entre o projeto e os programas de conservação da onça-pintada. A iniciativa ainda está em seus estágios iniciais, e fontes afirmam esperar que os esforços de conservação, mesmo que não sejam explicitamente voltados para as onças-pintadas, possam ter um efeito cascata na proteção da espécie.
À medida que ganha força, o Ywy Ipuranguete busca impulsionar a autogestão indígena, apoiar as comunidades no monitoramento de seus territórios, restaurar ambientes degradados, garantir a geração de renda sustentável e melhorar a segurança e a soberania alimentar, informou o Ministério dos Povos Indígenas à Mongabay, por e-mail. Ao fornecer aos líderes locais as ferramentas para administrar suas terras, a iniciativa permite que as comunidades indígenas organizem atividades, protejam florestas e mantenham práticas tradicionais, ao mesmo tempo em que ajudam a vida selvagem, incluindo as onças-pintadas, a se fortalecer.
“O foco no monitoramento da biodiversidade e na governança das terras é realmente positivo”, afirma Morato. “Será interessante ver como a proteção dessas áreas será garantida por meio da governança indígena. Acho que isso será importante para a conservação da onça-pintada e da biodiversidade em geral.”
Nos territórios indígenas, as crenças, os tabus e as tradições locais em torno do felino (mesmo quando ele é caçado) muitas vezes contribuem diretamente para sua conservação, segundo Fábio Dario, doutor em conservação de biodiversidade e pesquisador-gerente da consultoria ambiental Ploaia Agronomia, Ecologia e Meio Ambiente.
“A onça-pintada é uma espécie-chave tanto do ponto de vista ecológico quanto cultural”, diz Dario. “Os encontros entre pessoas e onças-pintadas podem ser vistos como ritos de passagem, ou podem trazer prestígio, além de importantes lições morais, religiosas e espirituais. O simbolismo da onça-pintada vai muito além do aspecto ecológico.”
Na Bahia, a iniciativa Ywy Ipuranguete já foi adotada pelo povo Pataxó Hãhãhãe, cujo território foi oficialmente reconhecido em 1926, mas foi ocupado ilegalmente por pecuaristas mediante títulos emitidos pelo governo do estado e só foi recuperado nas últimas décadas.
“Ocupamos a terra já devastada, destruída pela pecuária extensiva”, disse Titiah. “Quando nosso povo ocupou essa terra de volta, já não tinha mais as características de clima, de terra, de mata, como era antes.”
Com a segurança fundiária só garantida em 2012, depois que o Supremo Tribunal Federal anulou os títulos dos pecuaristas, o desafio passou da recuperação para a gestão sustentável em longo prazo. Por meio do Ywy Ipuranguete, os Pataxó Hã-hã-hãe estão agora trabalhando para organizar a forma como seu território é utilizado e protegido, equilibrando produção, conservação e práticas tradicionais.
“Hoje o que a gente mais precisa é organizar e planejar como que a gente vai fazer uso desse território — as áreas que vão ser de preservação e reflorestamento — para fortalecer a questão ambiental. Porque natureza, por si só, deixando sem mexer, ela consegue se recuperar. E alguns animais que não se via aqui antes, começaram a aparecer”, disse Titiah. “A onça-pintada, que o pessoal não ouvia falar, começou a aparecer — [e também a] onça-parda. Então, isso é uma demonstração de que, onde a comunidade chega, começa a ocupar, esses animais começam a ressurgir também.”











