“Juízes deveriam ser sobre-humanos”: o peso invisível por trás do banco dos julgamentos
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Quando um conflito eclode, um desastre atinge ou uma crise política se instala, os tribunais estão entre as poucas instituições que devem continuar funcionando — garantindo que o Estado de Direito seja mantido. Juízes continuam julgando casos criminais, trabalhando para proteger direitos constitucionais e responsabilizar quem infringe a lei, muitas vezes sob as mesmas pressões cotidianas enfrentadas pelas comunidades que atendem. Ainda assim, por décadas, pouca atenção foi dada ao bem-estar de quem tem a missão de entregar justiça.
“O juiz parece flutuar pelo tribunal com serenidade sem esforço, como um cisne na superfície espelhada de um lago”, disse o Hon. Rangajeeva Wimalasena, juiz das Cortes Nacional e Suprema de Papua-Nova Guiné, em entrevista à ONU News. “Mas sob essa superfície espelhada do lago, existe uma luta muito grande”, acrescentou, usando uma analogia do eminente lorde da justiça britânico Edward Pearce.
Às vésperas do dia internacional criado para destacar a resiliência e a importância do trabalho judicial, o juiz Wimalasena descreveu como apoiar magistrados não é apenas uma questão trabalhista, mas um pilar de uma justiça justa, imparcial e eficaz. A data comemorativa anual segue a adoção da Declaração de Nauru sobre o Bem-Estar Judicial, desenvolvida pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em 2024, que incentiva tribunais e governos a reconhecerem a importância do bem-estar judicial em todo o mundo.
O juiz Wimalasena acredita que o bem-estar de sua profissão é mal compreendido: “Quando você fala em bem-estar judicial, muita gente pensa que é sobre o bem-estar individual dos juízes… fazê-los viver um estilo de vida muito confortável e feliz”, disse ele. “Mas o que se entende por bem-estar judicial é bem mais profundo e amplo.”
Por gerações, ele explicou, esperou-se que os juízes carregassem o peso emocional do trabalho em silêncio. “O estresse judicial era considerado um tabu, porque a sociedade sempre esperou… que os juízes fossem sobre-humanos.” Essa expectativa, argumenta o juiz Wimalasena, ignora a realidade de que juízes lidam rotineiramente com provas traumatizantes, além de cargas de processos esmagadoras e decisões que podem mudar o rumo da vida das pessoas. Se essas pressões não forem enfrentadas, as consequências vão além do próprio juiz. “Se os juízes não mantêm o bem-estar judicial, isso pode de fato afetar a qualidade da justiça”, disse ele.
Essas pressões podem ser ainda maiores em países afetados por conflitos, violência política e desastres ambientais. Essa realidade é uma das razões pelas quais a Declaração de Nauru enfatiza que iniciativas de bem-estar judicial devem refletir as circunstâncias locais. “Alguns países vivem situações de conflito e violência política, guerras, até desastres naturais”, explicou Wimalasena. “Juízes enfrentam desafios muito específicos ao contexto nessas circunstâncias.” Apoiar magistrados nesses cenários ajuda a preservar o Estado de Direito quando ele está sob maior pressão.
Pesquisas recentes começam a quantificar o impacto que o trabalho judicial pode ter sobre o bem-estar dos juízes. Wimalasena citou um estudo de 2026 do Conselho Judicial Canadense que encontrou níveis preocupantes de sono de má qualidade entre magistrados, ligando o descanso insuficiente a níveis mais altos de estresse cognitivo. “Sono não é um luxo privado no que diz respeito aos juízes”, afirmou. “Ele sustenta a concentração, a memória, a regulação emocional e a tomada de decisões.” Em resumo, argumentou, a qualidade do sono de um juiz pode influenciar diretamente a qualidade da justiça entregue.
Ao mesmo tempo, pressões tradicionais estão sendo somadas a novos desafios. Wimalasena destacou descobertas de um estudo-piloto conduzido pelo Global Judicial Well-being Research Hub, que identificou o uso compulsivo de redes sociais e o assédio on-line como preocupações emergentes entre juízes. Muitos entrevistados disseram que suas instituições não tinham procedimentos claros para apoiar magistrados que sofrem ataques on-line. “As redes sociais estão se tornando um desafio emergente”, disse ele, observando que abusos on-line e o uso compulsivo de redes sociais afetam “o sono, a concentração e a gestão do tempo” dos juízes.
Para ele, tudo deveria girar em torno das pessoas que os juízes atendem. Os tribunais determinam se vítimas recebem justiça, se famílias resolvem disputas de forma justa, se direitos constitucionais são protegidos e se governos são responsabilizados. Suas decisões moldam economias, fortalecem o Estado de Direito e influenciam a confiança pública nas instituições. “O trabalho judicial afeta cada elemento de nossas sociedades”, disse ele. Proteger quem entrega justiça é, em última análise, um investimento em todos que dependem dela.










