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Cena de “El Eternauta” (série de TV, 2025). Foto: Netflix, usada com permissão.
Este artigo, escrito pelo Instituto Internacional de Direitos Humanos e Responsabilidade Social (IIRESODH) em parceria com a agência de publicidade criativa e comunicação Marcas, é publicado no Global Voices como parte de um acordo de cooperação mútua.
Nossa pesquisa utilizou uma metodologia de escuta social (social listening) para determinar e analisar o impacto combinado da IA (inteligência artificial), do entretenimento e de estratégias narrativas eficazes na construção de mensagens coletivas mais próximas do público, capazes de alcançar novas audiências em um universo digital saturado e hiperestimulante. Usamos como exemplo a série da Netflix “El Eternauta” (O Eternauta, 2025) e o atual cenário sociopolítico da Argentina.
A série “El Eternauta” é uma adaptação do clássico quadrinho argentino de ficção científica, escrito por Héctor Germán Oesterheld e ilustrado por Francisco Solano López no final da década de 1950, após o golpe militar de 1955.
Começando com uma nevasca tóxica e letal, a trama acompanha uma invasão alienígena a Buenos Aires e introduz a noção do “herói coletivo”, a ideia de que a solidariedade do grupo é a única salvação possível diante da opressão. Durante a última ditadura militar argentina (1976–1983), essa alegoria de ficção científica se tornou uma trágica realidade: Oesterheld, ativista político, foi desaparecido à força pelo regime, junto com suas quatro filhas e seus genros.
Essa mistura de ficção e realidade transformou “El Eternauta” e, especialmente, seu protagonista, Juan Salvo, em um símbolo de resistência diante do atual cenário político argentino.
O governo do presidente libertário de direita Javier Milei, que assumiu o cargo em dezembro de 2023, fez do equilíbrio fiscal sua principal prioridade. Na sequência, implementou o chamado “maior ajuste fiscal da história da humanidade”, ao mesmo tempo em que trava uma “batalha cultural” para incutir princípios libertários na sociedade. Além de outras reformas, isso envolveu cortes reais no orçamento de educação, saúde, ciência e previdência social para idosos, bem como um uso inovador da tecnologia digital. Em junho de 2024, o governo Milei avançou com uma reforma digital que previa a implementação intensiva de ferramentas e sistemas de IA no setor público.
O personagem Juan Salvo, interpretado por Ricardo Darín na série “El Eternauta”, 2025. Foto: Netflix, usada com permissão.
O público não recebeu o lançamento da série pela plataforma global de streaming como mero entretenimento, mas sim como um acontecimento social permeado de memória, em meio às mobilizações populares contra as reformas do novo governo argentino. É por isso que escolhemos essa série como foco de nossa análise.
Gostaríamos, portanto, de compartilhar algumas reflexões que podem ser úteis a outras organizações da sociedade civil (OSCs).
O entretenimento como canal para os direitos humanos Em um mundo saturado de informação, discursos individualistas e cheios de ódio costumam ser os que mais chamam atenção nas diversas plataformas. Nossa pesquisa também sugere que o universo do entretenimento não é um espaço superficial e desconectado da realidade, mas sim um lugar que molda o senso comum hoje em dia.
“El Eternauta” foi uma das dez séries mais assistidas da Netflix no mundo todo, tocando em uma ferida ainda aberta da sociedade argentina naquele momento. Sua trama de invasão alienígena e resistência coletiva despertou, a princípio, um sentimento de orgulho patriótico (“algo nosso” compartilhado globalmente), mas logo se transformou em um território de movimentos sociais.
Para as OSCs, a lição é clara: as gerações mais jovens se relacionam com a cultura em múltiplas plataformas. Por isso, não podemos depender apenas de termos técnicos e jurídicos. Em vez disso, a IA é uma ferramenta útil e acessível para adaptar nossas mensagens, usando humor e estética contemporânea, com produtos que antes exigiriam investimentos maiores e a contratação de especialistas. Isso nos permite difundir nossas causas de forma mais eficaz, como uma subtrama dentro do discurso cultural, aproveitando os algoritmos para amplificá-las.
Da tela para a rua Através da icônica máscara de Juan — uma máscara de mergulho artesanal com um filtro de ar improvisado, essencial para evitar que ele inalasse os flocos de neve tóxicos —, o simbolismo da série transcende a tela. Misturando-se ao humor e ao sarcasmo argentinos, ela se projeta nos protestos reais contra os cortes na previdência social, na ciência e na educação implementados pelo governo Milei desde 2024.
Ao longo de 2025, em todo o país, pessoas usando máscaras ou carregando cartazes com mensagens da série se tornaram uma cena comum nos protestos em defesa da ciência.
📣 Esto NO es ciencia ficción. Una tormenta destructiva avanza sobre el mundo del conocimiento.
Quienes no nos resignamos, nos organizamos. La resistencia está en marcha.
📍 Miércoles 28/05 a las 13 hs. en el Polo Científico#NoAlCientificidio #CienciaEnMarcha #NadieSeSalvaSolo pic.twitter.com/05uwT60533
— RAICYT (@RAICYT_Ar) May 26, 2025
Isto NÃO é ficção científica. Uma tempestade destrutiva avança sobre o mundo do conhecimento. Nós, que não nos resignamos, nos organizamos. A resistência está em marcha. Quarta-feira, 28/05, às 13h, no Polo Científico. (#NãoAoCientificídio) (#CiênciaEmMarcha) (#NinguémSeSalvaSozinho)
Contra el #cientificidio. Defendamos la ciencia y la soberania argentinas.
SUMATE a las actividades que se hagan en tu ciudad y seamos muchxs.
En Bariloche nos juntamos el 26/5 a las 15:30hs en el CCT Patagonia Norte para organizar la movida del 28/5, sumate! pic.twitter.com/zgZT2S2wdG
— Adriana Cristina Serquis (@aserquis) May 23, 2025
Luta contra o #cientificídio. (Cientificídio).
Vamos defender a ciência e a soberania argentinas.
JUNTE-SE às atividades que acontecerem na sua cidade e sejamos muitos.
Em Bariloche, nos encontramos no dia 26/5, às 15h30, no CCT Patagonia Norte (Centro Científico e Tecnológico), para organizar a mobilização do dia 28/5. Participe!
Ativistas e cidadãos em geral protestaram com cartazes e fantasias criativas feitas de roupas de inverno, ferragens e materiais de construção. Também usaram ferramentas de IA para criar imagens de alta qualidade para faixas e mobilização nas redes sociais, o que lhes permitiu se apropriar da estética da série.
Ao fazer isso, denunciaram o fato de que, ainda hoje, assim como em “El Eternauta”, enfrentam sua própria “neve tóxica” e seus próprios “cascarudos” (uma espécie de besouros alienígenas gigantes) que “ninguém pode sobreviver sozinho”, e que precisam ser derrotados coletivamente.
Embora essas manifestações tenham sido espontâneas e não fizessem parte da estratégia de campanha das OSCs, elas de fato repercutiram.
Excelente escena de “El Eternauta” donde los hijos de puta de los cascarudos reprimen jubilados pic.twitter.com/ehadhi8rd6
— lajuliaeva (@lajuliaeva) May 22, 2025
Uma cena marcante de “El Eternauta” em que os malditos cascarudos reprimem aposentados.
Destacamos esses pontos porque eles permitiram que movimentos sociais com orçamentos limitados acompanhassem o ritmo de grandes produções de estúdio em termos de cobertura midiática e posicionamento na conversa digital.
É aqui que a “perspectiva humana” da IA se torna tangível. Vimos como a tecnologia ajudou imagens a transcender o universo digital e chegar às “praças públicas”, provando que, apesar de suas limitações, a IA pode ser usada como catalisadora de mobilização, e não apenas de isolamento virtual. Os chamados para protestos em defesa da educação, e até a própria mídia, passaram a ser “ensinados” a replicar essa imagem.
Embora alguns dos usos de IA observados não tenham sido especificamente destinados a protestos sociais e à proteção dos direitos humanos, eles evidenciaram que a IA poderia ter sido usada de forma ainda melhor. No entanto, também é preciso reconhecer que esse uso espontâneo e implícito ajudou a manter viva a conversa provocada pela série, reforçando as mensagens (positivas) da subtrama mencionadas acima.
Sobrevivendo ao algoritmo: a estratégia da “subtrama” Nossa pesquisa sugere que, na era dos feeds curados por IA, as causas sociais correm o risco de ser soterradas pelo desinteresse algorítmico em relação à política.
No entanto, constatamos que essas causas repercutem com mais força quando apresentadas como histórias humanas, deixando pistas para que o próprio público investigue por conta própria. “El Eternauta” não é um panfleto, mas sua mensagem central — “o verdadeiro herói é um herói coletivo” — é profundamente política.
“Ninguém pode sobreviver sozinho” é o lema de “El Eternauta”. Foto: Netflix, usada com permissão.
Ao explorar as pistas sutis presentes na subtrama da série e na história de seu autor, indivíduos e organizações puderam direcionar a conversa para temas como memória, justiça e bem comum, confirmando, assim, a possibilidade real de romper a bolha informacional.
A estratégia das OSCs deve ser criativa. Isso inclui usar a IA para disfarçar os temas transversais que os algoritmos de fato distribuem (cinema, arte e tecnologia), transmitindo a mensagem social de forma orgânica e eficaz.
Decifrando as brechas e preparando o terreno Como OSC, precisamos decifrar as “brechas do algoritmo” e o que acontece ao nosso redor. Precisamos investir recursos para entender como essas ferramentas funcionam, não para nos tornarmos especialistas digitais, mas para garantir que a mensagem de solidariedade não se perca em meio a todo o alarde.
Uma última reflexão que vai além da tecnologia. Se conseguirmos fazer com que um jovem tire os olhos do celular e se junte a uma causa coletiva, o mundo que o recebe precisa oferecer o mesmo senso de pertencimento e apoio que os algoritmos parecem proporcionar.
Dominar a IA para difundir nossas pautas de forma criativa não é nossa única missão. Nossa outra missão é preparar o terreno para o momento em que novos públicos decidirem se afastar da dinâmica das “Big Techs” em busca de um espaço mais comunitário, com iniciativas que os desafiem e os envolvam.










