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Amazonas

Peixes da Amazônia estão respirando e ingerindo microplástico, mostra pesquisa

13 min de leitura

No Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio, próximo ao município de Vitória da Conquista (BA), jovens lideranças guiam os membros da comunidade ao unir o conhecimento ancestral ao desenvolvimento da agroecologia.

A atividade quilombola tem como protagonistas as sementes crioulas — variedades de plantas cultivadas e preservadas há gerações por comunidades tradicionais. No quilombo, os grãos encontram proteção em um banco de sementes, criado para proteger a terra e os saberes de quem vive ali.

A Mongabay entrevistou o jovem líder quilombola Tiago França da Silva, que atua como guardião das sementes em Lagoa de Melquíades e Amâncio. Ele relatou à reportagem que “o costume de coletar e reservar as sementes crioulas, por exemplo, nunca deixou de existir; ele vem desde os primeiros fundadores e sempre foi repassado pelos ancestrais”.

No Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio, um território tradicional localizado a cerca de 50 quilômetros de Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, preservar sementes crioulas livres de transgênicos e de agrotóxicos tornou-se uma linha de frente: são elas que mantêm viva uma ancestralidade que resiste  ao cerco da monocultura, ao limbo fundiário causado pela lenta demarcação de terras e às mudanças no regime de chuvas. O sustento dessa comunidade está guardado em pequenos grãos de milho e feijão puros, que fazem parte de um banco de sementes gerido de forma comunitária.

O manuseio desses grãos não é uma prática agrícola recente. Como legado passado adiante de avós para seus filhos e netos, os agricultores estavam acostumados a guardar suas sementes em um cômodo de suas próprias casas. Com o tempo, foi possível encontrar novos caminhos. A tarefa acabou nas mãos de Tiago França da Silva, 34 anos, líder do quilombo baiano: depois de estudar agroecologia, o representante resolveu envolver a comunidade na construção de um banco de sementes.

Assim nasceu  a Casa de Sementes, em 2017. Nela, Tiago  passou a atuar como um  guardião dos grãos, liderando uma comissão organizadora que selecionava e avaliava as sementes. Posteriormente, por seu trabalho, foi escolhido pela comunidade para ser a liderança geral do quilombo.

Essa herança biológica e cultural, contudo, está ameaçada pelo cerco territorial e pela contaminação. A proximidade do quilombo às grandes fazendas de gado  e  ao monocultivo de eucalipto não apenas pressiona os limites do território ancestral, como também isola antigas nascentes dos rios. Há também uma ameaça invisível: o risco  de polinização cruzada provocada pelo vento ou pelas abelhas — que podem carregar o pólen contaminado de lavouras vizinhas e destruir as sementes tradicionais.

Além da ameaça dos transgênicos, os moradores do quilombo enfrentam o limbo fundiário pela paralisação dos estudos de demarcação de terras, sob responsabilidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Assim, sem tempo a perder, o quilombo encontrou soluções no manejo agroecológico.

Desde 2017, o quilombo passou a integrar a Teia dos Povos, uma aliança de organizações que reúne comunidades tradicionais, povos originários e sem-terra. Segundo seus representantes, a Teia busca colocar assementes crioulascomo fundamento para desenhar um programa de soberania alimentar por meio da agroecologia —conservando a terra e o conhecimento.

Os desafios da comunidade Lagoa de Melquíades e Amâncio, bem como os resultados positivos do trabalho com as sementes, foram tema de uma entrevista do líder quilombola Tiago França à Mongabay. A entrevista foi editada para fins de clareza e concisão.

Mongabay: Você poderia contar um pouco da história do Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio?

Tiago França da Silva:Segundo o relato dos mais velhos e dos descendentes, o quilombo tem esse nome devido à história de fundação por dois irmãos negros, Melquíades e Amâncio, antes da Lei do Ventre Livre [lei promulgada pelo governo brasileiro, em 1871,  que determinou  que filhos de mulheres escravizadas nasceriam livres a partir daquela data]. Naquela época, uma fazendeira local, dona de todo o território, se chamava Dona Joana. Seu marido comprou as duas crianças [escravas] no Rio de Janeiro e as trouxe para a região para cuidar do gado. Certa vez, sumiram dois bois e Dona Joana mandou os dois rapazes procurarem na mata fechada. No segundo dia de buscas, eles ouviram o coaxar dos sapos e chegaram a uma baixada com uma lagoa, onde encontraram os bois. Dona Joana então mandou que eles fizessem roças naquele local e, antes de falecer, como não tinha outros filhos, doou todo o território a eles. Eles se instalaram, dividiram o território em duas partes e constituíram suas famílias.

Hoje a comunidade cresceu e abriga mais de 450 famílias, formadas por netos, bisnetos e tataranetos dos fundadores. O quilombo mudou fisicamente; as casas agora são modernizadas, feitas de bloco, cerâmica e telha. Mas o foco com a agricultura continua permanente por sermos zona rural. Produzimos para consumo e comercialização café, mandioca, milho, feijão e batata-doce, além de pequenas criações de aves, porcos e gado. Mantemos as rezas católicas, as ervas medicinais e as tradições do reisado, do samba de roda e da capoeira passadas de geração em geração.

Como começou a parceria com a articulação Teia dos Povos?

Ela se inicia entre 2017 e 2019, quando eu fui para o Assentamento Terra Vista [Arataca, Sul da Bahia] fazer o curso técnico em agroecologia. Nós ainda não conhecíamos a Teia  nem o Assentamento Terra Vista. A partir do momento em que fui fazer o curso, passei a acompanhar algumas reuniões, oficinas e seminários desenvolvidos por eles. Foi aí que a gente começou a fazer parte enquantonúcleo de base[grupos organizados territorialmente, de acordo com a área ocupada historicamente pela comunidade, responsáveis por decidir como implementar os projetos discutidos na Teia]. Com isso, somos a primeira comunidade quilombola do sudoeste da Bahia a fazer parte da Teia dos Povos.

Como é a sua atuação como guardião das sementes crioulas? E como líder jovem no quilombo?

Minha atuação começou por volta de 2015 e 2016 com a construção da primeira casa de sementes do quilombo,  por meio de um projeto com a instituição de assistência técnica Centro de Convivência e Desenvolvimento Agroecológico do Sudoeste da Bahia (Cedasb), do governo da Bahia. Embora cada agricultor já guardasse suas sementes em cômodos de casa — meu avô, por exemplo, sempre separava os grãos para plantar no ano seguinte —, a construção nos deu um local próprio, comunitário e coletivo.

A partir daí, além de levar esse legado de guardião, me tornei líder da comissão organizadora que seleciona e avalia a qualidade do milho, feijão e sementes de árvores nativas. Os agricultores pegam as sementes na época do plantio e, após a colheita, devolvem uma quantidade para manter o estoque coletivo. Posteriormente, fui escolhido pela comunidade para ser a liderança geral do quilombo e hoje sou também presidente da Associação de Produtores de Sementes Crioulas. Meu papel é buscar projetos, desenvolver a comunidade e manter vivas a nossa história, a cultura e a memória do passado sem perder a nossa essência de comunidade quilombola descendente de pessoas escravizadas.

Quais são os desafios enfrentados hoje no cultivo dessas sementes?

O maior desafio é a conscientização dos agricultores, pois muitos acabaram introduzindo o uso de agrotóxicos e sementes transgênicas em suas lavouras. Fazemos um trabalho para que plantem apenas as sementes da nossa Casa. Isso porque, se houver um plantio transgênico muito próximo, há risco de contaminação por polinização cruzada, por meio  do vento e das abelhas, fazendo com que a nossa semente deixe de ser crioula. O segundo desafio é o clima, pois tem chovido menos a cada ano no período adequado, e não temos uma área irrigada específica para cultivar as sementes. Isso faz com que muitos percam a produção pela falta de chuva. Como alternativa, criamos áreas isoladas de multiplicação só para as sementes crioulas.

Por fim, enfrentamos a invasão e a perda do nosso território devido à venda de áreas produtoras coletivas que pertenciam aos nossos fundadores, hoje ocupadas por grandes fazendas de gado e pelo monocultivo de eucalipto. Essas propriedades avançaram, desmatando o território e nos isolando dos locais onde havia  a maior quantidade de nossas aguadas e nascentes. O desafio atual é retomar esses locais de produção e [de fontes] de água.

Tiago França Silva, do Quilombo Lagoa do Melquíades e Amâncio, na Bahia. Foto: Acervo pessoal.

O território de Lagoa de Melquíades e Amâncio já é oficialmente reconhecido como quilombo? Há algum processo de demarcação em andamento?

Nós somos reconhecidos oficialmente pela Fundação Cultural Palmares, mas o processo de demarcação em si, para conseguir o registro final da retomada do território como um todo, ainda está em andamento e enfrenta muitas dificuldades. Nós estávamos com o processo avançado antes do impeachment da ex-presidente Dilma [Rousseff, em 2016]. O antropólogo [responsável pelo caso] já tinha feito as visitas e uma pesquisa muito boa com netos e netas dos fundadores [do quilombo]. Mas, com a entrada de Michel Temer [então vice de Rousseff, que a substituiu imediatamente após a destituição], todo o recurso que o Incra tinha para pagar as empresas [responsáveis por fazer a pesquisa do processo de demarcação]  foi retirado. A empresa teve que cancelar o trabalho e nós ficamos sem acesso à conclusão da pesquisa. Perdemos inclusive o contato do antropólogo, e muitas daquelas fontes idosas que ele entrevistou, infelizmente, já faleceram. Então, perdemos essas informações para sempre.

Com o governo [do ex-presidente Jair] Bolsonaro [2019-2022] a situação piorou e os processos pararam. Agora, com a volta do presidente Lula [desde 2023], os técnicos do Incra retornaram e disseram que iriam retomar a demarcação — mas isso já ocorreu há  mais de um ano e parou por aí; não tivemos nenhuma nova resposta. Essa lentidão é muito ruim: enquanto o processo muda ou atrasa a cada troca de governo, nós continuamos perdendo nossas terras para o eucalipto e para os fazendeiros.

Mongabay: As novas gerações do quilombo mantêm vivas as tradições da comunidade?

A nossa história e as nossas tradições são passadas de geração em geração, dos mais velhos aos mais novos, de forma contínua. O costume de coletar e reservar as sementes crioulas, por exemplo, nunca deixou de existir; ele vem desde os primeiros fundadores e sempre foi repassado pelos ancestrais. Da mesma forma, o uso de ervas medicinais e as manifestações culturais, como o reisado, a capoeira e o samba de roda, continuam vivos até hoje. O que aconteceu com o tempo não foi uma interrupção, mas uma modernização da estrutura física da comunidade. As novas gerações mudaram a forma das casas, que passaram do pau a pique para construções de bloco, cerâmica e telha, e alguns agricultores passaram a produzir também voltados para a comercialização, além do sustento. Mas a essência e o foco na agricultura e na nossa identidade quilombola permanecem firmes e presentes no cotidiano dos jovens de hoje.

Como ocorrem a preservação e o manejo das sementes crioulas?

Isso vem desde os mais velhos, os mais antigos; vem desde os costumes dos nossos ancestrais. A gente já tem esse costume de guardar as sementes, só que fazíamos isso em casa. Guardava-se num quartinho, num comodozinho de casa, para poder preservar a semente para plantar no próximo ano. Com a construção da Casa de Sementes no quilombo, a gente passou a ter um local próprio, comunitário e coletivo, para guardar essas sementes e assim poder selecionar, buscar a qualidade do milho, do feijão, de várias outras sementes também, como  as de árvores nativas. Todo ano, os agricultores vêm, pegam a sua semente na época do plantio, quando termina a colheita, devolvem uma quantidade para sempre manter aquela quantidade de sementes na Casa.

Hoje em dia, com a Casa de Sementes, a gente consegue armazenar em  maior quantidade. Temos os agricultores que são cadastrados na Casa de Semente, que são os guardiões e pegam a semente. Geralmente, a gente entrega a semente no mês de agosto para os agricultores levarem para plantar. Quando produzem e colhem, eles devolvem a quantidade para a Casa. Se a pessoa pegou dois litros [sic] de milho, vai devolver os dois litros. Se ele produziu mais e quiser devolver uma quantidade maior para ter mais sementes na Casa de Semente, ele pode devolver a mais. Assim, a gente vai mantendo sempre o ciclo e sempre a semente garantida ali dentro da Casa para não acontecerem perdas.

Vamos supor um exemplo: se o agricultor plantou, mas não teve o período correto de chuva e ele perdeu toda a produção, a gente vai ter aquela garantia de que aquela semente não será perdida completamente porque na Casa de Semente vai ter uma reserva.

O costume é sempre no mês de agosto reunir os agricultores, os guardiões, para fazer um momento ali de confraternização. Durante esse momento, a gente explica, também, a forma de plantio, a melhor forma correta de cuidar da semente. Depois, na entrega, a gente marca uma data, no pós-colheita, em que todos também se reúnem para falar como foi o processo, o plantio, o quanto colheu, confraternizam, com algumas atividades culturais, e mantêm viva a tradição.

Pimentel, S. K. (2023). Teia dos Povos: estratégias cosmopolíticas agroecológicas na formação de uma rede de autonomias no sul da Bahia.Revista de Antropologia, 66. doi:10.11606/1678-9857.ra.2022.204551

Imagem do banner:legenda e crédito. Foto feita por Tiago França Silva, do Quilombo Lagoa do Melquíades e Amâncio.

Mongabay Brasil

Conteúdo republicado — por Mariana Martins

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