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Além do binário: tradições globais de fluidez de gênero

17 min de leitura

Uma representação de uma batalha do épico hindu Mahabharata, entre Shikhandi, um personagem que nasceu mulher mas foi transformado em homem por uma divindade, e Kripa, outra figura central do épico. Imagem de uso livre.

Este artigo colaborativo faz parte da série Spotlight de junho de 2026 do Global Voices, “Diversidade de Gênero”. A série oferece um panorama sobre a diversidade de gênero e como ela vem sendo ameaçada, protegida e preservada ao redor do mundo. Você pode apoiar essa cobertura fazendo uma doação aqui.

Com frequência, a fluidez de gênero é vista como um fenômeno “novo” ou até mesmo “ocidental”. No entanto, a realidade é que inúmeras culturas ao redor do mundo têm tradições e histórias que vão além do binarismo de gênero.

Muitas culturas pré-coloniais reconheciam múltiplos gêneros, incluindo os chamados “two-spirit” (dois espíritos) entre povos indígenas da América do Norte e das First Nations, além dos povos das Ilhas do Estreito de Torres na Austrália atual, que celebravam os brotherboys, as sistergirls e outras identidades de gênero diversas. Muitas comunidades das Ilhas do Pacífico também apresentam variações de gênero, incluindo as fiafifine em Niue, as fakaleiti em Tonga, as vaka sa lewa lewa em Fiji, as whakawahine na Nova Zelândia, as rae rae no Taiti e os mahu no Havaí. Na África, historiadores identificaram ricas histórias de identidades LGBTQ+.

Essa fluidez também está presente em contos populares, religiões e mitos ao redor do mundo, que apresentam personagens complexos e diversos em termos de gênero, desde criadores sem gênero definido e divindades andróginas da fertilidade até figuras lendárias que desafiam o binarismo de gênero ou trocam de gênero por completo. E, em muitos casos, essa fluidez não é incidental, mas um princípio central da própria mitologia.

Contudo, com a expansão do colonialismo europeu e das religiões monoteístas, muitos desses mitos foram apagados ou reduzidos a seres de gênero binário que se encaixassem nas ideologias cristãs ocidentais. Como observa uma pesquisadora, “sua visão de mundo baseada no gênero não se encaixava facilmente nas sociedades que encontravam”.

A diversidade de gênero foi marginalizada, e pessoas de gênero diverso foram forçadas a viver na clandestinidade e esconder suas identidades. É importante notar que a diversidade de gênero nunca desapareceu — na verdade, as pessoas perderam a oportunidade de se expressar abertamente por medo de serem perseguidas ou estigmatizadas.

Embora a representação tenha oscilado ao longo da história em diversas culturas, a diversidade de gênero permaneceu visível em alguns mitos religiosos e culturais. Neste artigo colaborativo, o Global Voices mergulha em tradições de representação de gênero não binário ao redor do mundo, passando pela China, pelo Sul da Ásia, pela África, pelo Caribe e muito mais.

Raízes mitológicas no hinduísmo A base teológica para a variância de gênero é articulada de forma mais contundente nos antigos textos e épicos hindus.

Uma representação de Ardhanarishvara, simbolizando as energias masculina e feminina do hinduísmo. Pintura em guache sobre papel (cerca de 1800 d.C.) do Museu Britânico. Imagem via Wikipedia. Domínio público.

O deus hindu de gênero fluido mais conhecido é Ardhanarishvara (“O Senhor Meio-Mulher”), que representa a forma andrógina composta (masculina e feminina) da divindade hindu Shiva e de sua consorte, a deusa Parvati.

Ardhanarishvara é representado como uma única figura dividida ao meio: Shiva do lado direito e Parvati do lado esquerdo. O nome significa “o Senhor que é metade mulher”. Essa divindade simboliza a unidade e o equilíbrio entre as energias masculina e feminina, Purusha e Prakriti, representando a realidade última que transcende o gênero binário. Trata-se de um pilar filosófico para compreender o gênero como um espectro.

A fluidez de gênero também é comumente encontrada em diversos épicos hindus. No épico “Ramayana”, logo no primeiro dia de seus 14 anos de exílio de Ayodhya, o senhor Rama pede a seus devotos — “homens e mulheres” — que retornem à cidade; aqueles que ficaram e esperaram por ele são posteriormente abençoados e associados às origens da comunidade hijra (um terceiro gênero), ainda presente no Sul da Ásia atualmente.

No épico “Mahabharata”, no décimo terceiro ano de exílio, o personagem central, o guerreiro Arjuna, se disfarça de Brihannala, “um eunuco professor de música e dança”, para a princesa Uttarā — papel que muitos autores contemporâneos interpretam como um terceiro gênero ou uma travessia de gênero. O deus Vishnu também se transforma na encantadora Mohini, seu único avatar feminino e uma figura central para se pensar a fluidez de gênero e a manifestação divina.

Um terceiro gênero, conhecido como “Terceira Natureza” (Tritiya Prakriti), também é reconhecido em antigos textos jurídicos e médicos hindus (como o Kama Sutra e a Sushruta Samhita), que fazem referência explícita a um terceiro sexo, descrevendo indivíduos que nascem com características de ambos os sexos ou que sentem atração por pessoas do mesmo sexo, enquadrando essas identidades como parte natural da existência humana.

Fluidez no budismo chinês O budismo também possui uma tradição de fluidez de gênero em sua mitologia. Guanshiyin Bodhisattva (觀世音菩薩), ou simplesmente Guanyin, que significa “o Bodhisattva (Buda vivo) que percebe os sons do mundo”, é uma divindade de gênero fluido e uma das entidades divinas mais queridas do budismo chinês, do taoísmo e de outras religiões populares.

A forma original de Guanyin é Avalokitesvara, um Bodhisattva associado à compaixão. Nos primeiros sutras budistas (livros sagrados), Avalokitesvara é retratado como “um homem valoroso” (no Sutra Avatamsaka) ou “um homem virtuoso” (no Karuṇāpuṇḍarīka-sūtram). No entanto, de acordo com o Sutra de Lótus, um Bodhisattva não possui gênero fixo, e Avalokitesvara surge no mundo dos vivos para iluminar os seres sencientes em trinta e duas formas diferentes — de um Buda ou um rei Brahma a uma mulher, uma menina ou até mesmo uma forma não humana.

Os sutras sobre Guanyin Avalokitesvara foram traduzidos para o chinês pela primeira vez durante a Dinastia Han; suas esculturas surgiram na China, especialmente ao longo da Rota da Seda, por volta das Dinastias do Norte e do Sul.

As esculturas mais antigas, frequentemente na forma de “Guanyin do Lótus” (持蓮觀音), mantinham feições masculinas, incluindo peito plano e, às vezes, bigode. Durante a Dinastia Tang (618–907 d.C.), quando Wu Zetian (624–705 d.C.), a única monarca mulher da China, se declarou reencarnação do Buda Maitreya, a imagem de Guanyin, muitas vezes nas formas de “Guanyin de Onze Faces” (十一面) e “Guanyin de Mil Braços” (千手觀音), tornou-se mais andrógina, com feições faciais e corpo femininos. Isso consolidou a crença de que a deusa compassiva sempre ouviria e atenderia aos pedidos dos fiéis (有求必應).

(À esquerda) Bodhisattva Avalokiteshvara Guanyin. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. (À direita) Santuário chinês com uma estátua da Guanyin que Concede Filhos. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Já na Dinastia Song (960–1279 d.C.), Guanyin assumiu uma forma claramente feminina, com a imagem da “Guanyin da Água e da Lua” (水月觀音), próxima ao estilo da pintura chinesa, e a devoção popular à “Guanyin que Concede Filhos” (送子觀音) entre as fiéis.

Durante a Dinastia Ming (1368–1644), o épico romance chinês “Jornada ao Oeste” (西游记) consolidou ainda mais a iconografia de Guanyin como a deusa materna da misericórdia, já que a divindade, em sua imagem feminina de “Guanyin do Mar do Sul” ou “Guanyin que Atravessa o Mar” (南海 / 渡觀音), conduz a peregrinação ao domar o Rei Macaco, recrutar o virtuoso monge Tang Sanzang e todos os seus guardiões, e ajudar os peregrinos a superar muitos dos desafios ao longo da jornada. Hoje, estátuas da “Guanyin do Mar do Sul” são vistas com frequência ao longo do litoral chinês.

Fluidez de gênero pré-colombiana no Peru e no Equador [Traduzido por Ameya Nagarajan]

Os primeiros europeus a chegar ao litoral do atual Equador encontraram uma figura que não se encaixava em suas categorias binárias de gênero. Crônicas coloniais descrevem os “enchaquirados” — jovens que, segundo esses relatos, eram designados desde cedo para desempenhar papéis rituais, vestiam-se como mulheres e mantinham relações cerimoniais com membros da elite huancavilca. Escritos sob uma perspectiva profundamente moldada pela moral europeia do século XVI, esses relatos estão entre os registros históricos mais citados sobre compreensões alternativas de gênero nas sociedades pré-hispânicas equatorianas.

Uma imagem do documentário “La Playa de los Enchaquirados”. Captura de tela do trailer no YouTube.

Longe de permanecer restrita aos arquivos, a história dos enchaquirados ganhou nova vida no Equador contemporâneo. Pesquisas de estudiosos como o antropólogo Hugo Benavides provocaram uma reavaliação crítica desse episódio, enquanto em Engabao — uma comunidade pesqueira da província de Guayas — um coletivo LGBTQ+ adotou o nome “Los Enchaquirados” para resgatar uma história que por muito tempo permaneceu invisibilizada. Essa experiência foi retratada no documentário “La playa de los enchaquirados” (A Praia dos Enchaquirados), que conecta o passado pré-hispânico com os debates atuais sobre identidade, memória e diversidade.

Uma bandeira do orgulho quariwarmi criada em 2016. Imagem do Nonbinary Wiki. CC BY-SA 4.0.

Centenas de quilômetros ao sul, no coração do mundo andino, fontes coloniais também registraram figuras que desafiam as categorias de gênero compreendidas sob parâmetros ocidentais. Entre elas estão os “quariwarmi”, figuras associadas a práticas cerimoniais do mundo inca — particularmente em territórios que hoje fazem parte do Peru. Seu nome combina as palavras quéchuas “qari” (homem) e “warmi” (mulher), e diversos estudos os descrevem como especialistas rituais ligados a espaços em que a distinção entre o masculino e o feminino não seguia necessariamente uma lógica rígida ou excludente.

As interpretações sobre os quariwarmi ainda são objeto de debate, mas sua presença em fontes históricas levou pesquisadores a reexaminar como as sociedades andinas concebiam o gênero antes da colonização. Alguns autores defendem que essas figuras devem ser compreendidas dentro de um modelo mais amplo de complementaridade e equilíbrio entre diversos princípios sociais e espirituais. Para além do discurso acadêmico, os quariwarmi se tornaram uma referência importante para compreender a diversidade das experiências humanas documentadas no mundo andino pré-hispânico.

Transformadores humanos e fluidez de gênero na cosmologia iorubá Muito antes de o termo moderno “gender bending” se popularizar, os antigos iorubás da África Ocidental já cultuavam seres especiais que, segundo acreditavam, transitavam entre a masculinidade e a feminilidade. Esses seres eram chamados de òrìṣà.

Uma estátua de Obatalá na Costa do Sauípe, Bahia, Brasil. Imagem via Wikimedia Commons. CC BY 3.0.

Um dos òrìṣà mais queridos é Ọbàtálá, considerado uma divindade criadora na mitologia iorubá. Ọbàtálá costuma ser interpretado como um ser que reúne qualidades masculinas e femininas, associado à criação dos seres humanos por meio da modelagem do feto em argila, tanto no plano físico do útero quanto no espiritual. Como essa força criadora se estende pela existência reprodutiva tanto masculina quanto feminina, Ọbàtálá é frequentemente visto como uma divindade que transcende fronteiras rígidas de gênero.

Outro òrìṣà frequentemente descrito por meio da transformação é Èṣù Ọ̀dàrà. Èṣù, comumente traduzido de forma equivocada como “Diabo” ou “Satanás” por missionários cristãos, representa a dualidade e a mudança. Tudo tem um oposto, e é nesses espaços duais que Èṣù habita. Por conta desse papel, Èṣù pode ser interpretado como masculino ou feminino, alto ou baixo, bom (àdó aṣure) ou mau (àdó aṣubí). Dentro do corpus esotérico do Ifá (a escritura sagrada e sistema de adivinhação da religião iorubá), existe uma história em que Èṣù se transforma em mulher. Conta-se que um homem chamado Ṣàkòtó, em busca de boa sorte, fez oferendas sacrificiais, e Èṣù assumiu uma forma feminina para testar o caráter do homem.

Além da transformação física, há òrìṣà femininas cujas identidades desafiam as expectativas em torno da feminilidade. Ọya, esposa de Ṣàngó e òrìṣà do Rio Níger (odò Ọya), simboliza a transição e o movimento. Associada a tempestades e ventos poderosos, Ọya também é retratada com qualidades tradicionalmente associadas aos homens: autoridade, coragem e participação em guerras. Sua ferocidade é ligada ao búfalo, cujos chifres funcionam como seu totem e símbolo de força.

Uma representação de Olódùmarè, o Ser Supremo criador sem gênero na religião iorubá. Captura de tela do YouTube.

Ọ̀ṣun é a òrìṣà da fertilidade, da beleza, da inteligência, da diplomacia e do poder político. Nas narrativas da criação, Olódùmarè, o Ser Supremo sem gênero, enviou dezesseis emissários para estabelecer a ordem na Terra, e Ọ̀ṣun era a única mulher entre eles. Os homens a excluíram das decisões, o que levou ao fracasso da missão terrena. Eles retornaram a Olódùmarè para reclamar e foram informados de que o progresso exigia negociar com a mulher que haviam ignorado. No fim, Ọ̀ṣun se consagrou como uma força de autoridade cuja sabedoria restaurou o equilíbrio.

Em suma, as tradições sagradas iorubás preservam narrativas de òrìṣà que manifestam transformação, fluidez e transgressão de fronteiras sob diferentes formas, e sua memória segue viva no imaginário do povo iorubá ao redor do mundo.

Um personagem de Carnaval que transgride as fronteiras de gênero Dame Lorraine, um icônico personagem de paródia do Carnaval. Imagem do Flickr. CC BY 2.0.

Um dos personagens tradicionais de máscara mais queridos de Trinidad e Tobago é Dame Lorraine, presente nas expressões carnavalescas há séculos. Até hoje, as performances cômicas do personagem, que têm raízes na paródia à classe de plantadores franceses, são bem recebidas pelo público.

Facilmente identificada por seu busto avantajado e nádegas exageradamente amplas, Dame Lorraine foi historicamente interpretada por homens travestidos. Como o objetivo não era retratar uma mulher de forma convincente, mas sim zombar dos opressores coloniais, os homens se adequavam ao papel de várias maneiras. Além do fato de que as tradições de mascaramento e performance pública do Carnaval nos séculos XVIII e XIX tendiam a ser dominadas por homens, sua fisicalidade e seus movimentos exagerados frequentemente intensificavam a comédia por meio da caricatura.

Dame Lorraine. Imagem do Flickr. CC BY-NC-ND 2.0

Um artigo de 2021 publicado pela Folklife sugeriu que a prática de homens interpretando personagens femininas “pode ter sido inspirada pela mascarada Gẹlẹdẹ das sociedades iorubás da África Ocidental, que veneram o papel e o poder das mulheres na sociedade”. A dançarina e comentarista cultural trinitina Sonja Dumas, no entanto, destacou que “a Dame Lorraine original era uma performance de grupos de africanos recém-libertados da escravidão, e não um personagem único nem um grupo de pessoas com a mesma fantasia. Era uma performance satírica do período colonial — mais um gesto de resistência por parte dos africanos”.

Dumas supôs que o fato de as Dame Lorraine terem sido originalmente interpretadas por homens era “mais uma manifestação da inversão carnavalesca”. Curiosamente, o antropólogo Daniel J. Crowley defendeu que “mulheres também interpretavam a Dame Lorraine na época do Carnaval Jamette”, e que talvez tanto homens quanto mulheres da época pudessem optar por se vestir como o gênero oposto.

A Dame até tem sua própria música-tema, tocada normalmente sempre que o personagem se apresenta:

Hoje em dia, mais mulheres do que homens se vestem de Dame Lorraine. A fantasia consiste em um vestido que vai até os tornozelos, com mangas até os punhos, muitas vezes com babados e outros enfeites. As Dames costumam carregar um leque e uma sombrinha, ou usar um chapéu de aba larga ricamente decorado. Mas são seus movimentos que tornam esse personagem verdadeiramente especial. Ela dança de um jeito ao mesmo tempo cômico, sugestivo e rebelde, com suas fartas formas femininas em destaque num requebrado satírico e provocante.

O Carnaval sempre foi um espaço de crítica social contundente, e personagens como Dame Lorraine encarnam formas engenhosas de desafiar a autoridade e dar voz à autoexpressão.

Guerreiras que desafiam papéis tradicionais de gênero O folclore quirguiz é rico em histórias de mulheres guerreiras que desafiam papéis tradicionais de gênero, e que permanecem populares até hoje em comunidades ao redor do mundo. Os dois contos mais famosos pertencem a Kyz Saikal (Saikal, a Donzela) e Janyl Myrza (Janyl, a Guerreira).

Kyz Saikal é uma das personagens do épico “Manas”, o conto popular mais famoso e importante do Quirguistão. No épico, Kyz Saikal é descrita como uma guerreira feroz e habilidosa da tribo Noighut. As duas versões mais conhecidas do épico, narradas pelos manaschy (contadores de Manas) Sagymbay Orozbakov e Sayakbay Karalayev, mencionam sua beleza, força, habilidade e coragem, afirmando que ela “carregava espada, lança e escudo”.

Na versão de Orozbakov, ela desafia Manas, o principal herói e guerreiro, para um duelo de justa com lanças, prometendo entregar sua vida, sua liberdade e um cavalo caso perca, e pedindo paz e liberdade para seu povo caso vença. Ela fere Manas, que é salvo por um de seus companheiros de confiança, chamado Chubak, cuja interferência viola as regras da justa.

Na versão de Karalayev, Manas e Kyz Saikal competem duas vezes, cada um vencendo um duelo. Depois que Manas vence no final, ele pede sua mão em casamento, o que Kyz Saikal recusa, oferecendo-se para ser sua esposa na vida após a morte, já que Manas já tinha uma esposa.

Em 2016, a BBC incluiu Kyz Saikal em sua lista das 100 mulheres influentes e inspiradoras ao redor do mundo, e produziu um breve documentário sobre ela.

Uma atriz interpretando Janyl Myrza. Captura de tela do trailer do filme de 2015 “Жаныл Мырза” (Dear Sir).

Rivalizando com o status lendário de Kyz Saikal e talvez até ofuscando-o está a lenda de Janyl Myrza, conhecida como uma guerreira feroz, excelente cavaleira e atiradora mortal. Sua história é contada no poema homônimo escrito por Tenti Adysheva, baseado em lendas orais já existentes. Como filha única muito esperada em sua família, Janyl Myrza foi criada pelo pai para se tornar líder de sua tribo Noighut. Segundo as lendas, ela defendeu com sucesso seu povo contra os invasores calmucos.

Sua vida toma um rumo trágico depois que ela mata um guerreiro chamado Tulku e seus companheiros, após eles atacarem sua aldeia e roubarem rebanhos de cavalos por ela ter recusado a proposta de casamento de Tulku. Os companheiros de tribo de Tulku vingam sua morte sequestrando Janyl Myrza e casando-a à força com um ancião chamado Kalmatay. Rebelde, ela acaba escapando do casamento, ameaçando atirar em qualquer um que ousasse persegui-la. Sua vida termina em sua aldeia natal, em Kakshaal, onde encontra apenas desolação ao retornar.

Assim como Kyz Saikal, Janyl Myrza assume responsabilidades tradicionalmente reservadas aos homens, ao mesmo tempo em que traça ativamente seu próprio destino, recusando-se a ser mera espectadora. Ambas as histórias exemplificam mulheres rompendo barreiras de gênero e normas sociais dentro da sociedade quirguiz.

Além desses exemplos, existem centenas de outros espalhados pela geografia e pela história. Embora tenha havido, historicamente, esforços sistemáticos para eliminar a diversidade de gênero — alguns dos quais persistem até hoje —, o fato de ela continuar existindo é um testemunho de seu status como parte atemporal e inegável da experiência humana.

Global Voices

Conteúdo republicado — por Oiwan Lam

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