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O custo humano da expansão dos data centers na América Latina


14 min de leitura

Um data center. Imagem via Canva. Este texto faz parte da série especial da Global Voices de abril de 2026, “Perspectivas humanas sobre a IA”. A série busca mostrar como a IA está sendo usada nos países da maioria global, como seu uso e implementação afetam comunidades específicas, o que esse experimento de IA pode significar para as próximas gerações, entre outros temas. Você pode apoiar esta cobertura fazendo uma doação aqui. Os data centers são gigantes praticamente invisíveis que sustentam a era digital atual. Essas instalações são compostas por enormes galpões que abrigam servidores e outras infraestruturas de TI necessárias para processar o chamado novo petróleo: os dados. Com o atual boom da inteligência artificial (IA) generativa, a demanda por data centers deve crescer de forma exponencial, cerca de 20% ao ano até 2030, segundo o PNUD. Essa demanda urgente por data centers tem sido impulsionada por empresas de IA e tecnologia, que vêm fazendo lobby agressivo junto a diferentes governos e disseminando narrativas de que essa tecnologia vai impulsionar o crescimento econômico e o progresso. Como resultado, data centers estão surgindo em regiões que historicamente não eram prioritárias, especialmente no Sul Global. Como aponta o PNUD, na América Latina e no Caribe, por exemplo, a infraestrutura digital está concentrada em poucos países e é, em sua maioria, de propriedade privada, sustentada por grupos de investimento dos Estados Unidos. Steven Gonzalez Monserrate, pesquisador etnográfico de infraestruturas de nuvem e autor do livro “Cloud Ecologies”, chama esse processo de “terraformação” — a transformação da Terra e da própria forma como os seres humanos vivem para acomodar computadores. Ele explica: Estamos vendo, mais uma vez, o fluxo de recursos que esses data centers produzem indo para o norte global por meio de empresas ocidentais. Dessa forma, eles aprofundam as desigualdades e criam um novo colonialismo. Eles estão tomando terras. Estão tomando recursos naturais. Eles podem não ser países em si, mas estão se comportando como Estados. Google e Amazon estão cada vez mais se comportando como Estados. Eles estão gastando muito dinheiro para influenciar políticos. Estão gastando muito dinheiro para construir infraestrutura para seus trabalhadores e criando pequenos enclaves dentro dos países para seus funcionários. De fato, uma investigação intitulada “A Mão Invisível das Big Techs”, realizada pelo Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP) em parceria com a Agência Pública e outros 15 veículos, constatou que executivos de empresas de tecnologia mantiveram milhares de reuniões com autoridades governamentais de diversos países entre 2012 e 2025. E, entre os assuntos discutidos, IA, data centers, infraestrutura tecnológica, energia, impostos e regulamentação governamental ocuparam papel central — especialmente em países latino-americanos como Brasil, Chile, México e Argentina. Um morador do Uruguai enfrenta a seca em curso no país. Captura de tela do YouTube. Os data centers quase sempre afetam as comunidades vizinhas, e o impacto raramente é positivo. Isso acontece porque essas instalações geralmente exigem quantidades substanciais de energia, terra e água — e as construídas especificamente para sustentar a IA generativa demandam ainda mais. Essas demandas imensas já sobrecarregaram países do Norte Global. Então, como estão se saindo os países do Sul Global? Especialmente aqueles com PIB mais baixo, que já enfrentam desafios de infraestrutura, escassez de água e problemas na gestão da rede elétrica. Nesta reportagem colaborativa e transfronteiriça, a Global Voices reúne histórias de diversos países da América Latina onde comunidades estão resistindo à expansão de data centers impulsionada pela IA. Confira aqui uma reportagem colaborativa sobre como o desenvolvimento da IA está afetando comunidades na Ásia. O custo dos data centers Segundo o Data Center Map, o Brasil tem 206 data centers distribuídos por 34 mercados, liderando o ranking latino-americano. O governo federal implementou uma Política Nacional de Data Centers e estima investimentos de US$ 3 trilhões no setor nos próximos cinco anos. As autoridades também criaram um regime tributário especial para incentivar novas empresas a investir em data centers. “O Brasil precisa de uma política clara para atrair data centers”, disse Márcio Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em entrevista à EBC, grupo de mídia estatal brasileiro, em abril. “Precisamos ter cuidado ao elaborar uma política de incentivo à atração de data centers para que ela seja compatível com as questões ambientais. Porque um data center consome muita energia e muitos recursos hídricos, água para refrigeração.” Um dos exemplos mais marcantes de como esses incentivos podem prejudicar as comunidades do entorno é o projeto “Cidade da IA”, que será instalado em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, pela Scala, empresa que já opera data centers no Brasil, no Chile e no México. Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, extremo sul do Brasil, foi uma das cidades devastadas pela enchente histórica de 2024. As enchentes são consideradas o pior desastre climático já registrado no estado, já que cerca de 90% do território ficou submerso por dias. Os moradores continuam apavorados com a possibilidade de o desastre se repetir, já que as enchentes são uma realidade anual na região, mesmo em anos menos severos. O projeto foi anunciado pela primeira vez em 2024 e, quando concluído, o empreendimento da Scala será o maior data center da América Latina. Estima-se que a estrutura ocupe uma área de 7 milhões de metros quadrados e custe pelo menos US$ 50 bilhões. A Ambiental Media publicou, em março de 2026, uma reportagem exclusiva revelando que o governo estadual concordou em simplificar o processo de licenciamento ambiental para agilizar a liberação das licenças do projeto “no menor tempo possível”. O veículo também informou que, com a simplificação, “a empresa não é obrigada a realizar Estudo de Impacto Ambiental (EIA), nem audiências públicas”. O Ministério de Minas e Energia autorizou o acesso a 1,8 gigawatt de potência, o equivalente à energia consumida por uma cidade com 6 milhões de habitantes. Representantes do setor energético e de empresas de tecnologia estão pressionando o governo federal para que sejam criados ainda mais incentivos. Um estudo do IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) intitulado “Não somos o quintal dos data centers” analisou casos na América Latina e encontrou um cenário de “comunidades ficando sem água, contas de luz mais caras e projetos aprovados sem consulta à população”. O documento ressalta a necessidade de políticas de regulação eficazes e claras para limitar a expansão de projetos que possam trazer ameaças sociais e ambientais: “A ausência de diretrizes robustas pode contribuir para a reprodução de modelos de desenvolvimento que geram impactos socioambientais significativos, os quais, conforme apontado por diferentes levantamentos e estudos recentes, tendem a se concentrar em países do Sul Global, como o Brasil, em razão de marcos regulatórios menos restritivos.” Avanços no Chile, no Uruguai e na Argentina Em 2017, havia seis projetos de data centers no Chile. Em 2026, serão 66. Na Argentina, existem atualmente 42 data centers, e no Uruguai, 10. As gigantes de tecnologia embarcadas na corrida da IA — Microsoft, Amazon, Google e, em certa medida, a Oracle — estão todas investindo em data centers na América Latina. Steven Gonzalez Monserrate, que pesquisa o impacto ambiental e político dos data centers, disse em entrevista à Global Voices que, quando as empresas de tecnologia se aproximam de políticos, costumam fazer promessas grandiosas a autoridades locais e comunidades sobre geração de empregos, ganhos econômicos e avanços tecnológicos. Como explica Monserrate: Pensem nos data centers como o futuro. Eles pensam em computadores e IA. Isso é o futuro. E por que você iria querer impedir o futuro? Essa é mais ou menos a narrativa. Mas pouquíssimas pessoas realmente entendem como isso funciona. E o prefeito não entende como o data center funciona. Eles só veem cifrões, ficam muito animados e querem ter um incentivo econômico. Mas, na realidade, os data centers de IA não trazem tantos benefícios econômicos para as economias locais. Depois de construídos, a maioria exige apenas uma dúzia ou algumas dezenas de pessoas para operar, e não os milhares que os políticos imaginam. Um trabalhador em um data center do Google. Captura de tela do vídeo do canal Google Sustainability no YouTube. Eles também consomem grandes quantidades de recursos: energia, água e terra. Isso sobrecarrega a infraestrutura local, eleva o preço da eletricidade e pode até gerar desabastecimento — especialmente em períodos de escassez, como o causado pela falta de petróleo decorrente da guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Além disso, como precisam funcionar 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, os operadores vêm recorrendo a geradores de backup a diesel ou gás, que causam poluição do ar. Eles também geram poluição sonora, capaz de estressar as comunidades e causar problemas mentais e físicos aos moradores das proximidades. Gonzalez diz: A maioria dos data centers tem unidades de resfriamento de ar no topo da instalação. E esses resfriadores fazem um barulho alto, uma espécie de chocalho e zumbido. E como o data center não para de funcionar, é uma operação constante, então esse ruído é constante também. E existem vários estudos bastante consistentes sobre os efeitos da poluição sonora, ao longo do tempo, sobre o corpo humano. Alguns desses efeitos são psicológicos, mas afetam a sensação de bem-estar: ansiedade, pressão alta e estresse. As comunidades têm razão em se preocupar com a chegada de novos data centers. Uma investigação da Amenaza Roboto, produzida em parceria com a AI Accountability Network do Pulitzer Center, constatou que o impacto ambiental vai além do uso de água e eletricidade. Usando 25 anos de dados de satélites da NASA, os repórteres constataram que um data center operado pela Antel, empresa estatal de telecomunicações do Uruguai, cria uma ilha de calor visível em imagens de satélite, elevando as temperaturas de forma mensurável em relação à área ao redor. O Google está atualmente construindo um data center a apenas 11 quilômetros dali, que será cinco vezes maior que o da Antel — mas o estudo de impacto ambiental não faz nenhuma menção ao efeito de ilha de calor. Resistência das comunidades No Chile e no Uruguai, comunidades locais conseguiram impedir o Google de construir dois data centers — pelo menos temporariamente. Em fevereiro de 2024, moradores e ativistas da cidade de Cerrillos, na periferia de Santiago, capital do Chile, impediram o Google de construir um data center, barrando o uso de água para resfriar seus servidores. Eles levaram o caso ao tribunal ambiental, que bloqueou parcialmente a licença do Google (emitida em 2020), impedindo a construção do data center na cidade. O tribunal determinou que a gigante de tecnologia revisasse sua solicitação e considerasse o impacto ambiental. O sistema de resfriamento em um data center do Google. Captura de tela do canal Google Sustainability no YouTube. O Google havia anunciado que modificaria o sistema de resfriamento para usar menos do que os 169 litros de água por segundo previstos inicialmente. No entanto, após a decisão judicial, a empresa suspendeu o projeto e um investimento de US$ 40 milhões no que seria o segundo data center do país. O outro data center, construído em 2015 e ainda em operação, fica em Quilicura, também na periferia de Santiago. No momento em que este texto foi escrito, não havia informações sobre se o Google retomaria a construção do novo empreendimento. Secas atingiram diversas regiões do Chile ao longo de um período de 40 anos, entre 1979 e 2019. Além disso, o norte do Chile é uma das regiões mais secas do mundo, e a região central, onde vive 70% da população do país, enfrenta déficit hídrico permanente desde 2010. Em 2023, em meio à pior seca do Uruguai em 74 anos, o Google comprou 29 hectares de terra para construir um data center no departamento de Canelones, no sul do país, informou o jornal The Guardian. O data center usaria 7,6 milhões de litros de água por dia para resfriar seus servidores, o equivalente ao consumo doméstico diário de 55 mil pessoas. A água viria diretamente do sistema público de abastecimento de água potável. A indignação pública permaneceu generalizada, e a população responsabilizou a política econômica do país, afirmando que mais de 80% da água disponível é destinada à indústria. Um data center do Google em construção. Captura de tela do canal Google Sustainability no YouTube. O Google havia pausado a construção pouco depois de iniciá-la, em 2023. O empreendimento ainda consta como “em construção” na página de data centers da empresa. No entanto, a obra foi aprovada depois que o Google concordou em substituir o sistema de resfriamento por um método baseado em ar-condicionado, em vez de água. “Os protestos da sociedade civil conseguiram mudanças importantes no projeto do Google, que inicialmente usaria grandes quantidades de água.” No entanto, o novo plano “foi aprovado sob pressão de tempo, o que dificulta avaliar seus impactos”, disse Ana Filippini, do Movimento por um Uruguai Sustentável (MOVUS). A Argentina enfrenta seu próprio dilema em relação aos data centers, dividida entre a preservação ecológica e o medo de ficar de fora da corrida da IA. O projeto Stargate Argentina foi anunciado pelo CEO da OpenAI, Sam Altman (por videochamada), e pelo presidente argentino, Javier Milei, em outubro de 2025, como um marco histórico. Na prática, embora a própria OpenAI não vá construir ou manter o data center planejado, a gigante de tecnologia prometeu investir — ou, mais precisamente, como aponta o Buenos Aires Times, concordou em comprar tudo o que for produzido pelo data center, que será construído pela empresa local. No entanto, especialistas alertam que a Argentina ainda não possui um marco regulatório voltado especificamente para a instalação e operação de data centers de grande escala. Na prática, a única regulamentação aplicável é o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), que oferece benefícios fiscais, aduaneiros e financeiros para atrair capital. Embora esse regime possa atrair investimentos, ele não trata de questões fundamentais como salvaguardas ambientais, uso da água, consumo de energia ou planejamento de longo prazo. Patagônia, Chile. Imagem via Wikimedia Commons. Licença CC BY 2.0. A Patagônia é vista como um local atraente por seus recursos energéticos, incluindo gás natural e fontes renováveis como energia hidrelétrica e eólica. Mas há muitas preocupações ambientais envolvidas. No geral, a província de Neuquén parece estar entre os locais mais favoráveis para uma implantação inicial, dada sua crescente indústria de gás de xisto e seus ativos de energia limpa. Mas os data centers exigem quantidades significativas de água, especialmente para os sistemas de resfriamento. Em regiões como Neuquén, a escassez de água já é um problema e deve se agravar com as mudanças climáticas. Comunidades da região vêm alertando sobre os impactos ambientais cumulativos. Elas apontam problemas já existentes ligados à extração de petróleo e gás, como vazamentos, contaminação e infraestrutura insuficiente. Este texto foi coescrito pela editora da Global Voices para Europa Central e Oriental, Daria Dergacheva, pela editora para Brasil e Cone Sul, Fernanda Canofre, e pela editora sênior e editora de Justiça Climática, Sydney Allen.

Global Voices

Conteúdo republicado — por Daria Dergacheva

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