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Como uma ferramenta de pesquisa com IA ajudou a desafiar o apoio à violência policial no Brasil

8 min de leitura

Arte de Marcas, usada com permissão.

Em 2025, enquanto o Instituto Fogo Cruzado, principal monitor da sociedade civil sobre violência armada no Brasil, e a organização de pesquisa britânica Future Narratives Lab finalizavam um estudo sobre as mensagens em torno da violência policial em favelas, fomos abalados por uma reviravolta sombria. Em uma única operação policial em uma favela do Rio de Janeiro, em 28 de outubro, 122 pessoas foram mortas pela polícia brasileira, a operação policial mais letal da história do país. Pesquisas de opinião realizadas nos dias seguintes à operação mostraram que o apoio público a esse tipo de ação continuava amplo, apesar de evidências antigas de que essas operações não têm impacto na redução das taxas de criminalidade.

Em 2023, o Brasil registrou 45.747 mortes violentas intencionais — uma das taxas mais altas do mundo. Como muitas democracias, o país há muito enfrenta a questão do amplo apoio público à violência do Estado, o que tem contribuído para um sentimento social mais amplo de medo, fatalismo e dessensibilização. Mudar isso exige entender o que funciona para desafiar certas ideias equivocadas. O amplo apoio às operações de 28 de outubro, apesar das mortes, evidenciou a necessidade crítica de que organizações de base descubram mensagens que ressoem com o público, especialmente em um ambiente político polarizado como o do Brasil.

Entendendo o que impulsiona o apoio à violência

Organizações da sociedade civil que trabalham com questões controversas enfrentam um problema: muitos públicos apoiam políticas e ações que vão contra seus próprios interesses, mas são difíceis e caros de alcançar para fins de pesquisa, especialmente em contextos politicamente incertos ou altamente polarizados. Essas organizações, particularmente no Sul Global, muitas vezes não têm o financiamento e os recursos para realizar o tipo de pesquisa aprofundada que organizações da sociedade civil do Norte Global costumam usar. Grupos focais e entrevistas qualitativas são o caminho padrão para entender por que as pessoas têm as opiniões que têm, mas são lentos e caros, o que frequentemente os torna inacessíveis para as organizações menores que fazem o trabalho mais urgente.

E se uma ferramenta de inteligência artificial (IA) pudesse reduzir essas barreiras e permitir que pequenas organizações de base entendessem como seus públicos-alvo pensam? A adoção em larga escala de ferramentas de IA para uso cotidiano criou mais oportunidades para aprender habilidades de pesquisa e processar informações. Mas, como em qualquer inovação tecnológica, existem considerações éticas em torno do uso dessa tecnologia, incluindo as implicações de usar ferramentas criadas por grandes corporações de tecnologia e as consequências ambientais dos data centers.

É claro que não se trata de uma tecnologia que possa ser usada de forma leviana. Enquanto desenvolvíamos a ferramenta, tivemos muitas discussões sobre como usar a IA de uma maneira consistente com nossas crenças e objetivos gerais. No fim, decidimos manter uma abordagem que vimos como capaz de contribuir para o avanço de um movimento de direitos humanos, ao mesmo tempo em que tomamos medidas específicas para proteger a privacidade dos usuários, priorizar soluções baseadas em software de código aberto e planejar ações futuras para lidar com outras preocupações.

Usando IA para revelar crenças subjacentes

Antes deste projeto, a Future Narratives Lab havia desenvolvido uma ferramenta de Entrevistador por IA especificamente para organizações da sociedade civil que buscam entender seus públicos. Após um teste bem-sucedido da ferramenta em um projeto que testava mensagens sobre o sistema de justiça criminal no Reino Unido, o Instituto Fogo Cruzado procurou a Future Narratives Lab em busca de apoio para usá-la em um novo projeto sobre violência patrocinada pelo Estado no Brasil, financiado pelo International Resource for Impact and Storytelling (IRIS), como parte de seu programa “New Tech, New Rules”.

O principal uso da ferramenta neste projeto foi para pesquisa primária, lançando as bases para o desenvolvimento de novas mensagens e abordagens de contranarrativa. Foram realizadas 28 entrevistas qualitativas aprofundadas por meio do entrevistador de IA baseado em chatbot, com cada participante podendo interagir na conversa usando seus próprios dispositivos, por meio de uma URL e de um código de participante fornecidos.

Os participantes foram selecionados e recrutados com base em um perfil demográfico identificado em pesquisa documental prévia como mais propenso a apoiar um aumento da violência policial como forma de reduzir a criminalidade: pessoas que se identificavam como cristãs (evangélicas ou católicas), que não haviam concluído o ensino superior e que tinham renda familiar inferior a R$ 500 (aproximadamente US$ 98).

O entrevistador de IA conduziu uma conversa personalizada, estruturada mas adaptável, com cada participante por até 30 minutos, fazendo perguntas de acompanhamento e sondando inconsistências e raciocínios. Cada entrevista se baseava em um roteiro geral que estabelecia o que a pesquisa pretendia alcançar e o que acontecia, de forma simultânea, mas única para cada participante. Para dar uma ideia de como era uma entrevista típica:

O processo de desenvolvimento de mensagens que se seguiu revelou uma série de novos insights e oportunidades potenciais de persuasão.

O que as entrevistas por IA possibilitam

A capacidade de realizar múltiplas entrevistas, de forma simultânea e remota, permite que organizações comprimam o que normalmente levaria semanas de trabalho de campo em apenas alguns dias, a uma fração do custo. Para organizações da sociedade civil com poucos recursos em todo o mundo, essa ferramenta representa uma mudança significativa: torna viável a pesquisa aprofundada de público sobre o que poderia mover seus públicos-alvo.

Neste caso, o Fogo Cruzado usou a ferramenta para investigar o que impulsiona as crenças e opiniões subjacentes sobre a violência policial. As entrevistas por IA, combinadas com seus anos de experiência e conhecimento especializado, sugeriram três áreas potenciais em que as mensagens poderiam influenciar públicos relutantes:

Essa pesquisa fundamental levou diretamente à próxima etapa do estudo: uma pesquisa com mais de 500 brasileiros de um perfil demográfico “difícil de persuadir”, em um teste no estilo de ensaio clínico randomizado (RCT), para entender qual dessas opções de mensagem poderia contribuir para uma redução no apoio às operações policiais.

O que descobrimos

A mensagem com melhor desempenho não era centrada nas vítimas, na empatia ou na injustiça estrutural — o enquadramento narrativo que os defensores do setor costumam buscar primeiro. Era uma crítica pragmática à competência policial: “A polícia não é suficientemente treinada ou preparada, então realizar operações em favelas lotadas só leva a mais trocas de tiros e mais vítimas inocentes.” Esse enquadramento surgiu diretamente das entrevistas conduzidas por IA, nas quais os participantes descreviam repetidamente a polícia como despreparada, e não como malévola.

Igualmente marcante: os participantes evangélicos, que no discurso político brasileiro costumam ser vistos como alinhados ao conservadorismo, especialmente em um contexto no qual igrejas frequentemente colaboram com as forças de segurança, mostraram-se menos favoráveis às operações policiais do que outros grupos. Suas respostas em texto livre revelaram estruturas morais enraizadas na redenção, na crítica estrutural e na desconfiança em relação às elites, o que está em tensão com a política punitivista frequentemente atribuída aos evangélicos.

O panorama geral

Moradores de favelas são rotineiramente mal representados tanto nas narrativas políticas e midiáticas nacionais quanto internacionais. Nosso estudo dá voz a eles de formas que nem sempre são feitas. Isso nos faz repensar quais públicos consideramos “persuadíveis”.

A metodologia de IA acessível, rápida e replicável foi um fator-chave para que conseguíssemos fazer isso acontecer, e nosso objetivo é que outras organizações de base façam o mesmo. Para começar, o Fogo Cruzado já compartilhou informações sobre essa abordagem com 20 organizações brasileiras por meio de um “acampamento de comunicação”, antes de uma eleição geral crucial em outubro de 2026, na qual a segurança pública será um tema central.

À medida que o impacto da IA na sociedade se torna um tema de discussão cada vez mais acalorado, aumentam as expectativas e responsabilidades de garantir que seu uso leve em conta as muitas considerações éticas envolvidas.

Entre nossas organizações, sentimos que estamos em uma posição forte para fazer isso — a Future Narratives Lab já publicou sobre os impactos negativos do uso convencional de IA, e o Fogo Cruzado tem uma conexão próxima com comunidades de base para garantir que suas visões sejam levadas em conta.

Já foram tomadas medidas para afastar o entrevistador de IA dos modelos “de fronteira” mais extrativistas, como o Claude ou o ChatGPT, em direção a modelos que respeitam a privacidade e a proteção de dados e mantêm padrões gerais mais altos. Em um momento em que vemos o populismo crescer globalmente, a possibilidade de mudar mentalidades pode parecer improvável, mas, com a tecnologia nos permitindo alcançar os públicos onde eles estão, nos aproximamos de construir poder coletivo.

Global Voices

Conteúdo republicado — por Daniel Stanley, Marianna Araujo e Diogo Santos

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