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Clima e Meio Ambiente

Agroecologia é sinônimo de autonomia feminina no campo, afirma ativista moçambicana Olga Muthambe

9 min de leitura

Em Moçambique, país localizado no sudeste da África, mais de 1,6 mil mulheres integram programas de práticas agroecológicas nas províncias de Maputo, Gaza (ambas ao sul), Tete (centro) e Cabo Delgado (extremo norte). As ações são conduzidas pela ONG Hikone Moçambique, uma associação da sociedade civil, fundada em 2013, que busca empoderar mulheres no campo. A entidade procura trabalhar sobretudo com moçambicanas em situação de vulnerabilidade social.

O deslocamento da população local, com implicações para os seus meios de subsistência, a expropriação e a concentração de recursos e da terra estão entre os efeitos negativos mais comumente identificados como desdobramentos do extrativismo, que muitas vezes consiste na apropriação da natureza por meio da exploração do trabalho.

Segundo a Hikone Moçambique, o extrativismo ainda fragiliza a soberania alimentar e agrava desigualdades, afetando desproporcionalmente as mulheres — que perdem alternativas de geração de renda.

A Hikone foi cofundada pela ativista social moçambicana Olga Muthambe, atual diretora-executiva da organização. Feminista, praticante de desenvolvimento comunitário, professora autodidata e mãe de sete filhos, ela possui mais de 30 anos de experiência no trabalho com comunidades rurais. Na década de 1990, Muthambe trabalhou com mulheres e jovens em projetos de reabilitação após os anos da guerra civil de Moçambique (1977-1992), coordenando iniciativas para garantir segurança alimentar.

Décadas depois, em 2021, com o prolongamento de outro conflito armado em Cabo Delgado, a ONG expandiu seu trabalho para apoiar mulheres afetadas pela violência e pelo deslocamento forçado — que, só nessa província, afetou cerca de um milhão de pessoas.

Ao longo da sua trajetória, a entidade desenvolveu trabalhos com mais de 5 mil mulheres por meio de diferentes frentes, incluindo capacitações, encontros comunitários e seminários em todo o Moçambique.

Em 2025, Muthambe também esteve no Brasil para o 2º Encontro da Articulação Nacional Mulheres e Clima, organizado pelo governo brasileiro como parte das metas governamentais de enfrentamento à crise climática até 2035.

A Mongabay conversou com a diretora-executiva da Hikone Moçambique sobre o cenário social do país africano, os desafios enfrentados pela ONG e o papel da agroecologia na inclusão de mulheres que vivem em diferentes contextos de vulnerabilidade.

Mongabay: Que tipo de agroecologia as mulheres praticam nos projetos da Hikone em Moçambique?

Olga Muthambe: As mulheres praticam uma agroecologia baseada nos princípios da sustentabilidade, da diversidade produtiva e da valorização dos conhecimentos locais e tradicionais. Em pequenas parcelas de terra e nos seus quintais, cultivam diferentes culturas alimentares, hortícolas, plantas medicinais e frutíferas, utilizando métodos que respeitam a natureza e promovem a conservação do solo, da água e da biodiversidade.

Para estas mulheres, a agroecologia é muito mais do que produção de alimentos ou um meio de sustento. Falar de agroecologia é falar de mobilização, autonomia, liberdade, solidariedade e sustentabilidade. É uma forma de resistência e de construção de alternativas diante dos impactos do extrativismo, da perda de terras e de territórios, das desigualdades sociais, das mudanças climáticas e dos conflitos armados. Através da agroecologia, as mulheres fortalecem a sua capacidade de organização coletiva e de defesa dos seus direitos e meios de vida.

Quais benefícios essa prática acrescenta a quem a pratica?

Em primeiro lugar, [a atividade] contribui para a segurança alimentar e nutricional, garantindo maior diversidade de alimentos saudáveis e livres de produtos químicos. Além disso, fortalece a autonomia econômica das mulheres por meio da venda de excedentes agrícolas, reduzindo a dependência de insumos externos e aumentando a capacidade de geração de renda. A agroecologia também promove a preservação dos recursos naturais, melhora a fertilidade do solo, protege a biodiversidade e aumenta a resiliência das comunidades diante das mudanças climáticas. Também há o fortalecimento da liderança feminina, da solidariedade e da organização coletiva. Os espaços agroecológicos tornam-se locais de aprendizagem, troca de experiências, apoio mútuo e mobilização social para a defesa dos direitos das mulheres e dos seus territórios.

No geral, quais problemas levaram essas mulheres a adotar as práticas agroecológicas?

A adoção da agroecologia surgiu como resposta aos diversos desafios enfrentados pelas mulheres rurais, especialmente as que vivem em áreas afetadas pelo extrativismo e pelos conflitos armados. Entre os principais problemas estão a perda de terras agrícolas para projetos extrativistas, a degradação ambiental, a redução da fertilidade dos solos, os impactos das mudanças climáticas, a insegurança alimentar e a limitação de oportunidades econômicas para as mulheres.

[Muthambe destacou o prolongado conflito armado na província de Cabo Delgado, iniciado por grupos insurgentes e fundamentalistas religiosos em outubro de 2017. A crise deu origem a uma onda de assassinatos, sequestros e queima de habitações, causando a morte de mais de 6,6 mil moçambicanos e deslocando cerca de um milhão de civis, segundo estimativas]. Com o deslocamento da população, perda de bens de produção e dificuldades de acesso aos meios de subsistência, as mulheres identificaram a agricultura [como estratégia] e a Hikone sensibilizou os coletivos de mulheres a aderirem à agroecologia, como uma alternativa para superarem as dinâmicas do extrativismo e conflito armado, produzindo de forma coletiva em pequenas áreas para conseguirem ter comida no prato, alimentos sem agrotóxicos e saudáveis, recuperarem a sua autonomia, fortalecer a produção local de alimentos, proteger os recursos naturais e reconstruir as suas vidas e comunidades.

E qual a ligação entre as vítimas do extrativismo, os casos de terrorismo armado e a agroecologia?

Com o terrorismo em Cabo Delgado, famílias ficavam em centros de acolhimento. Foi nos centros onde encontramos as mulheres, em um cenário de desespero e trauma total. Para nós, não era a melhor opção ficarem lá, naquela situação. Assim, focamos na terapia comunitária, que foi o nosso instrumento de trabalho. Por meio desse instrumento de trabalho, ‘despertamos’ as mulheres para que não vivessem emocionalmente traumatizadas e dependentes de ajuda. Elas ‘despertaram’, ganharam autoestima e começaram a buscar alternativas de sobrevivência. Foi assim que se identificaram com a agricultura.

Concordamos com a opção delas, mas excluímos os agrotóxicos, por serem prejudiciais. Como alternativa para acabar com as pragas, procuramos estabelecer uma agricultura com os saberes tradicionais ensinados pelos antepassados. As mulheres ganharam consciência ao apostar na agroecologia para evitar o consumo de alimentos com produtos químicos.

[para sensibilizar sobre o não uso de agrotóxicos]. No caso das mulheres vítimas do terrorismo em Cabo Delgado, explicamos que era difícil adquirir adubo e destacamos os benefícios da agroecologia para a saúde. Já as mulheres que receberam compensações e reassentamentos, vítimas de extrativismo, por exemplo, ficaram dependentes do que tinham recebido.

Quando a compensação foi esgotada, elas tinham apenas as casas de reassentamento e reclamaram [que precisavam de mais] terra para produção [agrícola]. [Como sensibilização para promover a autonomia, neste caso] Nós as desafiamos e incentivamos a praticar agroecologia nos seus quintais. Era uma alternativa distante dos seus pensamentos porque estavam habituadas ao cultivo feito nas machambas [pequenos terrenos para agricultura de subsistência, muitas vezes de propriedade do Estado e de uso comunal por membros da mesma família].

Como o conhecimento agroecológico é transmitido a essas mulheres?

O conhecimento agroecológico é transmitido por meio de processos de educação popular e de aprendizagem coletiva. As mulheres aprendem umas com as outras por meio de intercâmbios de experiências, escolas de campo, sessões práticas nos locais de produção, demonstrações comunitárias e visitas de aprendizagem entre diferentes coletivos, troca de experiências.

Também são valorizados os conhecimentos e saberes tradicionais das mulheres mais velhas, que partilham o que aprenderam e sabem sobre a preparação de composto e inseticidas naturais, conservação de sementes locais, técnicas de cultivo, conservação dos alimentos e gestão sustentável dos recursos naturais. A metodologia privilegia o “aprender fazendo”, combinando conhecimentos tradicionais com novas práticas agroecológicas adaptadas às realidades locais. Este processo fortalece a confiança, a solidariedade e a liderança das mulheres em suas comunidades.

Até que ponto a Hikone sente que consegue atingir os seus objetivos enquanto organização?

Os resultados mais visíveis têm sido observados na área da agroecologia. As mulheres produzem alimentos para o consumo familiar e para o comércio, melhorando a segurança alimentar e gerando renda. Os coletivos de agroecologia mantêm uma rede ativa de comunicação através de grupos de WhatsApp, onde partilham experiências, desafios, soluções e sucessos relacionados com a produção agrícola, fortalecendo a aprendizagem coletiva. Entre as mulheres deslocadas pelo conflito armado, há mudanças importantes. Muitas, que anteriormente dependiam exclusivamente de assistência humanitária, hoje estão empenhadas em recuperar os seus meios de subsistência, solicitando apoio para cultivar a terra, produzir alimentos saudáveis e reconstruir as suas economias tradicionais. Na área da alfabetização de adultos, os resultados também são significativos: muitas mulheres aprenderam a ler e escrever, ganharam maior autonomia, passaram a assinar os seus próprios documentos, incluindo carteiras de identidade e passaportes. Elas conseguem se deslocar de forma independente.

Qual é a visão para o futuro?

A longo prazo, a Hikone pretende consolidar coletivos de mulheres praticantes de agroecologia cada vez mais fortes, organizados em cooperativas, com maior capacidade produtiva e acesso a rendimentos estáveis e dignos. A organização pretende igualmente fortalecer os coletivos de mulheres comerciantes informais, promovendo a sua organização em cooperativas, o trabalho coletivo, o acesso a mercados e o aumento dos seus rendimentos. Outro objetivo estratégico consiste em ampliar a liderança das mulheres na defesa de seus direitos, na proteção dos territórios, na adaptação às mudanças climáticas e na construção de comunidades mais justas, resilientes e pacíficas.

Mongabay Brasil

Conteúdo republicado — por Far Vubil

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