4 min de leitura
Diante dessa mudança, as respostas dos governos lutam para acompanhar o ritmo, enquanto uma tímida dinâmica de diálogo regional tenta retomar fôlego.
Falando ao Conselho de Segurança na terça-feira, o chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e o Sahel (Unowas), Leonardo Santos Simão, apontou uma ameaça em constante evolução.
“A ameaça representada por grupos terroristas e outros grupos armados não estatais segue aguda, particularmente no Sahel central e no norte da Nigéria, e agora avança rapidamente sobre os Estados costeiros do Golfo da Guiné”, alertou.
Segundo ele, essas organizações vêm adaptando seus métodos numa velocidade vertiginosa. Drones, ferramentas de comunicação sofisticadas, criptomoedas: seu arsenal está em constante modernização. Seus ataques são coordenados em vários países, enquanto seus vínculos com redes criminosas transnacionais se fortalecem. O objetivo vai além de operações puramente militares: os grupos terroristas querem consolidar controle territorial e econômico ao mesmo tempo em que corroem a confiança pública nas autoridades governamentais.
Essa tendência pode ser vista nos acontecimentos dos últimos meses. No Mali, uma coalizão formada pelo Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM, em árabe), afiliado ao grupo terrorista islamita Al-Qaeda, e pela Frente de Libertação do Azawad (FLA) lançou ataques simultâneos em 25 de abril contra Bamako, Kati, Gao, Kidal e Mopti. Segundo Simão, essas ofensivas resultaram em baixas civis e militares, incluindo o ministro da Defesa do Mali. Os combates continuam agora no norte do país, enquanto o bloqueio parcial de várias estradas interrompe o abastecimento da capital, somado a ataques contra linhas de energia.
No Níger, os ataques miraram principalmente o aeroporto de Niamey e uma base militar em Tahoua, no sudoeste. No Burquina Fasso, as regiões norte e leste continuam sofrendo ataques, às vezes realizados com drones. Por fim, na Nigéria, o norte do país e a região central conhecida como “Cinturão do Meio” seguem assolados por sequestros, ataques repetidos e um pesado custo civil.
À medida que a violência avança, os deslocamentos populacionais se acumulam. No fim de fevereiro, a África Ocidental e o Sahel abrigavam quase 6,8 milhões de deslocados internos, além de 1,3 milhão de refugiados e solicitantes de asilo. Os Estados do Golfo da Guiné, até então relativamente poupados, agora abrigam cerca de 220 mil refugiados. Na Libéria, o número de cidadãos burquinenses que vivem no país mais que triplicou desde 2025, passando de 40 mil para 140 mil, pressionando terras disponíveis, serviços públicos e comunidades anfitriãs.
O acesso humanitário, porém, continua a se deteriorar. A falta de financiamento reduz as operações de assistência, enquanto mulheres, crianças e jovens arcam com o peso das consequências da crise.
Outro desenvolvimento preocupante é o crescimento do tráfico de drogas. Segundo Simão, a produção, o tráfico e o consumo de drogas aumentam rapidamente, particularmente nos Estados costeiros, onde as autoridades vêm fazendo numerosas apreensões. Os jovens são as principais vítimas, mas alguns grupos armados também estariam usando essas substâncias para seus combatentes. Mais preocupante ainda: os cartéis estariam exercendo influência crescente sobre certas instituições públicas, contribuindo para seu enfraquecimento.
Esse fenômeno ilustra a crescente interconexão entre terrorismo, crime organizado e economias paralelas, o que vem borrando ainda mais as fronteiras entre insurgência, tráfico e governo eficaz em uma região turbulenta.











