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Cultura

Rato preso em armadilha de gaiola sobre piso de azulejos

Prot Tachapanit/iStock via Getty Images Plus

Questões culturais e de conveniência determinam quais animais são considerados ‘pragas’

8 min de leitura

Depois que perus selvagens atacaram uma mulher de 83 anos nos EUA em maio de 2026, levando-a ao pronto-socorro para levar pontos, a polícia alertou os moradores de Alameda, na Califórnia, para que evitem interagir com os animais. Perus selvagens podem ser particularmente agressivos durante a época de acasalamento. Eles também podem causar danos às propriedades: cavam em jardins, sujam decks com seus excrementos e, ocasionalmente, atacam carros e janelas quando confundem seus próprios reflexos com perus rivais.

Os perus selvagens podem ser um incômodo para os moradores de Alameda, mas também têm sido altamente valorizados por várias culturas ao longo da história da América do Norte. Dadas essas ameaças à segurança humana e à propriedade, é justo chamar essa ave tipicamente americana de praga?

Como antropólogo que estuda as interações entre humanos e animais, descobri que a ideia de “praga” é um conceito flexível que muda ao longo do tempo e entre as culturas. Assim como o que é erva daninha para uma pessoa pode ser flor silvestre para outra, a categoria de praga é subjetiva e depende de valores sociais, estéticos e econômicos dentro de uma determinada cultura.

Rotular um animal como praga normalmente justifica o uso de métodos prejudiciais ou letais para remover espécies indesejáveis dos espaços humanos. Mas esses métodos podem acarretar custos que superam em muito seus benefícios, causando sofrimento desnecessário não apenas às chamadas pragas, mas também aos seres humanos, a outros animais e a ecossistemas inteiros.

Entender por que as pessoas classificam certos animais como pragas pode ajudar a sociedade a lidar com possíveis conflitos, minimizando os danos tanto aos seres humanos quanto aos animais.

O que é uma praga?

A palavra em inglês “pest” deriva da palavra latina “pestis”, que significa peste, instrumento de morte ou destruição, ou incômodo.

A Peste Negra é um dos exemplos históricos mais notórios da relação entre doenças e pragas. Essa pandemia de peste bubônica se espalhou por meio de roedores portadores de pulgas infectadas, matando cerca de 25 milhões de pessoas no século XIV na Europa. A descoberta de que os animais eram portadores da peste deu origem a uma das primeiras profissões relacionadas ao controle de pragas: o caçador de ratos.

Alguns animais que os humanos consideram pragas são sinantrópicos: animais selvagens que se adaptaram aos habitats humanos devido aos diversos benefícios que recebem das atividades humanas. Às vezes, essa adaptação é espontânea, como no caso de roedores ou coiotes atraídos por estoques de alimentos humanos.

Mas os seres humanos frequentemente contribuem de forma mais direta para a adaptação dos animais sinantrópicos, como no caso dos pombos, uma das primeiras espécies de aves domesticadas. Descendentes selvagens dos pombos-das-rochas (Columba livia) domesticados, os pombos ainda prosperam em ambientes humanos, onde podem encontrar alimento e fazer ninhos nas estruturas de edifícios que se assemelham a penhascos.

Os humanos também contribuíram para a disseminação de espécies não nativas ou “invasoras”. As viagens marítimas dispersaram roedores e porcos selvagens por inúmeros ecossistemas insulares. Esforços equivocados para controlar outras pragas, neste caso insetos que prejudicam as plantações de cana-de-açúcar, levaram à introdução de sapos-da-cana na Austrália.

Animais fora do lugar

Muitos animais considerados pragas não representam ameaças reais aos seres humanos ou aos seus ecossistemas, mas isso não impede que as pessoas os vejam como um problema.

A maioria das espécies de aranhas, por exemplo, é inofensiva aos seres humanos e pode ajudar a eliminar insetos que podem ser ainda mais indesejáveis em uma casa. E, apesar de serem consideradas invasoras dos quintais, as toupeiras, na verdade, trazem benefícios aos jardins, ao arejar o solo e consumir insetos e moluscos que se alimentam de plantas.

Para entender por que animais inofensivos ainda são frequentemente vistos como pragas, pode-se recorrer ao conceito fundamental da antropóloga Mary Douglas de matéria fora do lugar. Em seu livro de 1966 “Pureza e Perigo”, Douglas argumenta que conceitos transculturais, como pureza e poluição, baseiam-se em ideias normativas sobre os lugares adequados para determinadas coisas.

A sujeira, por exemplo, não é uma substância específica de caráter imundo, mas uma categoria social que as pessoas usam para descrever matéria que se encontra em um lugar onde não deveria estar. Lama espalhada em suas roupas, pele ou talheres, por exemplo, pode ser considerada sujeira nesse sentido, enquanto a lama no chão seria apenas parte do solo, onde pertence.

Pragas, da mesma forma, podem ser entendidas como animais que violam limites espaciais determinados por valores culturais. Por exemplo, uma corça e seu filhote pastando em um prado, ou uma família de esquilos fazendo ninho em uma árvore, podem se tornar pragas se começarem a pastar em roseiras valiosas ou a fazer ninhos em um sótão.

Assim como as pulgas transmissoras da peste, esses animais podem representar danos reais aos seres humanos, mas a categoria de “praga” não precisa estar vinculada a uma avaliação objetiva de risco.

Perigos potenciais do controle de pragas

Classificar animais como pragas pode, às vezes, causar mais danos do que os próprios animais.

Esforços históricos para controlar ou erradicar pragas ilustram tanto como a cultura influencia quais animais são colocados nessa categoria quanto as consequências indesejadas que podem surgir ao classificá-los dessa forma.

Em 1532, as Leis Tudor contra Pragas ofereciam recompensas pela matança de uma ampla gama de espécies consideradas uma ameaça aos estoques de alimentos agrícolas na sociedade inglesa do início da Era Moderna. Esses animais incluíam texugos, morcegos, corvos, raposas, ouriços, lontras e corujas, entre muitos outros. Demonizadas por crenças supersticiosas ou errôneas, muitas dessas espécies, na verdade, não competiam com as pessoas por alimento nem representavam outros perigos significativos.

Quatro séculos depois, em meados do século XX, o governo da China, de forma semelhante, incentivou a população a erradicar mais de um bilhão de pardais para impedir que eles esgotassem os estoques de grãos.

Essas políticas na Inglaterra e na China levaram muitas espécies à beira da extinção, causando danos contínuos aos ecossistemas sem, no entanto, resolver os problemas de abastecimento alimentar. No caso da campanha chinesa contra os pardais, o fato de não se ter reconhecido o papel ecológico dos pardais como predadores de insetos levou ao surgimento de enxames de gafanhotos que devastaram as plantações de grãos, contribuindo para uma fome em massa que matou quase tantas pessoas quanto a Peste Negra na Europa.

Os esforços contemporâneos de controle de pragas também causaram danos colaterais imprevistos. O pesticida DDT causou danos generalizados aos ecossistemas, ao mesmo tempo em que representava um risco significativo à saúde humana. O uso regular de mata-ratos químicos representa um perigo para os seres humanos, animais de companhia e a vida selvagem.

Novas formas de coexistência

Os seres humanos têm motivos muito válidos para se preocuparem com espécies potencialmente nocivas. De fato, o mosquito, uma das pragas mais comuns em todo o mundo, também é responsável por mais mortes humanas do que qualquer outro animal.

Mas a categoria de “praga” muitas vezes serviu de pretexto simplista para direcionar outros animais ao extermínio, em muitos casos com graves consequências ecológicas.

Além dos muitos danos causados pelos esforços para erradicar pragas, o próprio conceito de “praga” contribuiu para a violência humana ao fornecer uma poderosa metáfora para desumanizar grupos marginalizados ao longo da história.

Em vez de designar outros animais como pragas, as pessoas podem lidar com os perigos potenciais de outras espécies enquanto também assumem a responsabilidade pela forma como contribuímos para essas relações tensas. Entender as pragas como uma categoria cultural subjetiva abre espaço para questionar quais interesses são atendidos por tais designações, quem é prejudicado pelo rótulo e quais possibilidades de relações alternativas podem existir.

Assim como no caso dos perus selvagens de Alameda, deixar os outros animais em paz e encontrar maneiras de coexistir pode levar a resultados melhores para todos.

The Conversation Brasil

Conteúdo republicado — por Elan Abrell

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