
A geração perdida: a educação inacabada dos jovens rohingya nos campos de refugiados de Bangladesh
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Um estudante em um centro de aprendizagem em Cox’s Bazar, Bangladesh. Foto de Mohammed Zubair, usada com permissão.
Toda manhã, em dezenas de campos de refugiados rohingya em Bangladesh, milhares de jovens rohingya acordam com as mesmas esperanças que estudantes em qualquer lugar carregam. Eles sonham em se tornar médicos, professores, engenheiros, jornalistas e líderes capazes de servir suas comunidades. Pegam cadernos gastos, caminham até centros de aprendizagem superlotados e com recursos muito limitados, ou estudam por conta própria, porque não há mais nenhum lugar onde possam continuar sua educação.
Refugiados rohingya não têm permissão para cursar a educação formal em Bangladesh, por causa de políticas governamentais que restringem seu acesso ao sistema nacional de ensino. Como refugiados, eles não podem se matricular em escolas públicas ou universidades de Bangladesh, e essas restrições estão amplamente ligadas ao seu status de refugiado e à sua identidade. Em vez disso, a maioria das crianças e jovens rohingya fica limitada a centros de aprendizagem que oferecem apenas educação básica. Como resultado, milhares de estudantes rohingya são impedidos de continuar seus estudos, desenvolver suas habilidades e construir um futuro melhor.
O mundo costuma descrever essas crianças como a “geração perdida”.
Essa expressão reflete a tragédia do deslocamento delas, mas não reflete quem elas realmente são.
Depois de ouvir as vozes dos jovens rohingya, uma coisa fica clara: eles não estão perdidos. Não abandonaram seus sonhos, nem deixaram de acreditar no poder da educação. O que perderam é algo muito diferente — a oportunidade de aprender livremente, continuar os estudos e construir o futuro que imaginavam antes que a violência os forçasse a fugir de sua terra natal.
Sonhos que se recusam a desaparecer
Todos os dias, Mohammed Furkan, poeta e ativista jovem, vê jovens estudando birmanês, inglês, matemática, ciências, história e geografia até tarde da noite, compartilhando livros com amigos, ensinando crianças mais novas e se recusando a deixar a educação desaparecer de suas vidas. A maioria dos estudantes compra seus próprios livros, enquanto alguns recebem livros doados por outros membros da comunidade. Ele acredita que o mundo costuma focar no que os refugiados perderam, sem enxergar o que eles continuam protegendo.
Ele diz: “Não perdemos nossos sonhos nem nosso potencial. O que perdemos foram as oportunidades que todo jovem merece.”
As palavras de Furkan capturam uma verdade simples, mas poderosa: o futuro de nenhum jovem deveria ser determinado pelo lugar onde foi forçado a buscar segurança.
Essa realidade também se reflete nas conclusões da Unicef e do Acnur. Crianças e jovens refugiados rohingya têm grande vontade de aprender e permanecem comprometidos com sua educação. A educação deles é interrompida não por falta de determinação, mas porque as oportunidades educacionais nos campos de refugiados em Bangladesh são limitadas.
Estudantes mais velhos estudando em uma sala de aula em Cox’s Bazar, Bangladesh. Foto de Mohammed Zubair, usada com permissão.
Embora alguns centros de aprendizagem ofereçam acesso à educação básica e alguns estudantes possam estudar no âmbito do Currículo Piloto de Myanmar, muitas crianças ainda não conseguem acessar uma educação contínua e de qualidade. Os centros de aprendizagem costumam ter capacidade muito limitada, o que resulta em salas de aula superlotadas. Também há escassez de professores qualificados ou experientes, livros didáticos e outros materiais de estudo. Mais importante ainda, as oportunidades de continuar os estudos além do ensino médio (equivalente ao 10º ano) são extremamente limitadas, deixando muitos estudantes sem um caminho claro para o ensino médio superior ou a universidade. Como resultado, muitas crianças e jovens rohingya não conseguem continuar sua educação, apesar de sua forte motivação e comprometimento com os estudos.
A dor de chegar a uma porta fechada
Um jovem rohingya, Aung Naing Soe, explicou que a educação para os refugiados rohingya é financiada principalmente pela Unicef e implementada por meio de parceiros como CODEC, BRAC, JCF, Coast Foundation e outras ONGs. No entanto, esses programas continuam insuficientes para atender às necessidades educacionais. Como resultado, a maioria dos estudantes rohingya depende de escolas comunitárias dirigidas por professores rohingya experientes nos campos.
Para muitas famílias rohingya, as escolas comunitárias são muito mais do que salas de aula — são uma fonte de esperança para o futuro de seus filhos. Segundo Ali Jinnah Hussin, ativista de direitos humanos e pesquisador, embora cerca de 6.400 centros de aprendizagem informais operem nos campos de refugiados com apoio de ONGs internacionais, muitas crianças rohingya preferem as escolas comunitárias porque acreditam que professores qualificados e o currículo de Myanmar as preparam melhor para o futuro.
Muitos pais escolhem as escolas comunitárias porque confiam na qualidade da educação oferecida ali. Essas escolas são dirigidas por professores rohingya experientes, muitos dos quais lecionavam em Myanmar antes de serem deslocados, e continuam ensinando seguindo o currículo de Myanmar. Em contrapartida, muitos pais sentem que os centros de aprendizagem ligados a ONGs internacionais não oferecem a mesma qualidade de ensino nem a mesma profundidade de conhecimento, o que torna as escolas comunitárias a melhor escolha para a educação de seus filhos.
Apesar da dedicação desses professores e do esforço de seus alunos, boa parte dessa educação permanece invisível fora dos campos de refugiados. Sem certificados reconhecidos internacionalmente ou qualificações credenciadas, anos de estudo e conquistas têm pouco valor além dos limites do campo, deixando muitos estudantes rohingya talentosos sem oportunidades de continuar sua educação.
No entanto, embora possam concluir o ensino médio nos campos de refugiados de Bangladesh, os rohingya não conseguem acesso ao ensino superior, porque nenhuma universidade de Bangladesh pode admiti-los devido ao seu status de refugiado.
Para famílias que já lutam para sobreviver, o ensino superior se torna um sonho que parece impossível de alcançar. Jovens que antes se imaginavam vestindo becas de formatura passam a procurar trabalho diário apenas para ajudar suas famílias a sobreviver.
O sonho não desaparece.
A oportunidade, sim.
Segundo o Acnur, apenas uma pequena parcela dos jovens refugiados no mundo consegue acesso ao ensino superior, apesar de terem capacidade, determinação e vontade de continuar aprendendo. Eles continuam fazendo uma pergunta simples: por que nos é negada a oportunidade de continuar nossa educação quando a educação é um direito humano fundamental? Nós, rohingya, não somos seres humanos merecedores da mesma chance de aprender que os estudantes de outros países têm, de crescer e construir nosso futuro como qualquer outro jovem no mundo? Essas não são questões de privilégio — são questões de igualdade, dignidade, justiça e direitos humanos.
Educação também é sobre esperança
Ro Hefzu, poeta, explica como foi ter seus estudos interrompidos abruptamente por causa de seu status de refugiado. “Antes mesmo de podermos demonstrar nossas habilidades, experiência ou potencial, muitas vezes já somos barrados.”
Mas quando o ativista Ro Hamid Ullah fala sobre educação, raramente começa falando de salas de aula ou livros didáticos. Ele começa falando de esperança.
Para os jovens que vivem em situação de deslocamento, a educação é mais do que aprender lições. Ela lhes dá um motivo para acreditar que o amanhã pode ser melhor que o hoje. Quando essa esperança é interrompida, o impacto emocional é profundo.
Noor Kolima perdeu os pais ainda muito jovem. Ela vive no maior assentamento de campo de refugiados do mundo, em Cox’s Bazar, Bangladesh, com seu irmão com deficiência, cuja doença mental grave o torna quase incapaz de cuidar de si mesmo. A vida de Noor é uma luta diária para atender às suas necessidades básicas, tanto de educação quanto de sustento. Tudo o que lhe resta da família é um lenço poderoso e simbólico de sua mãe, que ela carrega como lembrança. Ele sussurra que, um dia, ela poderá provar que pertence a algum lugar no mundo.
Noor tinha apenas 14 anos quando perdeu a mãe para uma doença grave. Apesar da dor e do luto pela morte da mãe, ela continua sonhando em se tornar médica. Ela quer salvar a vida de outras mulheres, para não precisar ver outras morrendo, como sua mãe, por falta de acesso a serviços médicos. Ela acredita: “Se eu puder ser uma menina educada hoje, poderei educar outras meninas amanhã.”
Muitos estudantes rohingya vivem com incerteza, frustração e decepção. Alguns são forçados a abandonar a escola para sustentar suas famílias financeiramente. Outros continuam estudando sem saber se seus esforços algum dia abrirão as portas com que sonham.
Ainda assim, eles continuam aprendendo.
A resiliência deles é extraordinária.
Pesquisas da Save the Children mostram que interrupções prolongadas na educação podem afetar o bem-estar mental, a autoconfiança e as oportunidades futuras. Por trás de cada trajetória educacional interrompida há um jovem lutando para manter viva a esperança.
O que os jovens rohingya realmente pedem
Os jovens rohingya não estão pedindo que o mundo sinta pena deles. Estão pedindo as mesmas oportunidades que os estudantes de qualquer país merecem. Querem educação de qualidade, certificados reconhecidos, formação profissional, bolsas de estudo, acesso a universidades e uma chance justa de construir vidas significativas por meio do conhecimento e do trabalho árduo. Educação não é caridade. É um direito humano fundamental.
Investir na educação de refugiados não é apenas ajudar estudantes individualmente. É investir em futuros professores, médicos, engenheiros, empreendedores, jornalistas e líderes comunitários que um dia poderão ajudar a reconstruir suas comunidades.
As vozes dos jovens rohingya neste artigo enviam uma mensagem clara: eles não desistiram da educação, e o mundo não deveria desistir deles.










