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A ecóloga Flávia Costa dedica sua carreira a entender como as florestas amazônicas funcionam — e como respondem às transformações ambientais. Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ela atua na área de ecologia vegetal e investiga um pouco de tudo: desde os efeitos da hidrologia sobre a estrutura das florestas até os impactos das mudanças ambientais no funcionamento da biodiversidade amazônica. Em 2024, Costa recebeu o Prêmio Capes-Elsevier na região Norte do Brasil, concedido a cientistas mulheres com trabalhos de destaque no cenário nacional.

A especialista coordena pesquisas de longo prazo que, ao longo dos anos, acompanham a dinâmica da Amazônia em constante movimento. Seu trabalho mais recente envolve a colaboração em um estudo, realizado com mais de 160 pesquisadores de diversos países, sobre as mudanças na diversidade de espécies arbóreas entre os Andes e a Amazônia nas últimas quatro décadas.

“Muitas pessoas olham para uma floresta e pensam que árvore é árvore.” A frase dita por Flávia Costa ajuda a explicar por que muitas das mudanças que ocorrem na Amazônia passam despercebidas. Para quem observa a floresta de longe, ela continua verde, viva e parece a mesma.

No entanto, pesquisadores alertam que mudanças provocadas pelo aquecimento global e pelo desmatamento podem estar alterando a floresta de formas nem sempre visíveis à primeira vista. Em entrevista à Mongabay, Flávia Costa vai por esse caminho ao explicar por que não existe apenas uma Amazônia — e como a ciência enxerga essa afirmação.

Mongabay: Ao longo dos anos em que você estuda a Amazônia, quais foram as principais mudanças observadas na floresta?

Flávia Costa: Quando dou aula, costumo dizer aos alunos que a ‘Amazônia não existe’. Porque ‘a Amazônia’ são muitas coisas; existem ‘as Amazônias’. Cada região tem um tipo de floresta e sofre pressões diferentes. Então eu não conseguiria responder, de forma simples, como a Amazônia está mudando. Existem regiões em que vemos transformações muito rápidas e outras que, pelos resultados das minhas pesquisas e de meus colegas, ainda estão resistindo relativamente bem. As áreas mais preocupantes hoje estão no sul e no leste da Amazônia, especialmente no chamado arco do desmatamento, que inclui partes [dos estados] de Rondônia, do Mato Grosso e do Pará.

Nessas regiões, não estamos lidando apenas com as mudanças climáticas. Estamos falando de estressores compostos: mudanças climáticas atuando sobre paisagens já impactadas pelo desmatamento, com florestas reduzidas e fragmentadas e mais vulneráveis aos incêndios. Além disso, são áreas onde a redução das chuvas tende a ser mais intensa devido à combinação entre o desmatamento e o aquecimento climático.

Os estudos mostram que é justamente nessa região que aparecem os sinais mais claros de aumento da mortalidade de árvores e de mudanças na composição das espécies que formam a floresta. Por isso, é uma área especialmente sensível neste momento.

Já em regiões mais ao noroeste da Amazônia, incluindo áreas próximas a Manaus, o cenário ainda é diferente. Não observamos a mesma tendência de redução das chuvas. Em alguns locais, inclusive, há sinais de aumento da precipitação. Mas isso não significa, necessariamente, uma situação favorável. Precisamos olhar, também, para a distribuição dessas chuvas. Quando a água se concentra em períodos cada vez mais intensos, podem ocorrer enchentes severas. E o excesso de água pode ser tão prejudicial à floresta quanto a falta.

Ao ler o estudo recente com o qual você colaborou, chama a atenção a ideia de que as espécies precisam migrar ou se adaptar às mudanças ambientais. Na sua opinião, esse também foi um dos aspectos mais importantes revelados pela pesquisa?

Não, porque, como bióloga, a gente já espera isso. Faz parte das nossas hipóteses de base. Quando uma população enfrenta mudanças no ambiente, ela tem algumas possibilidades de resposta.

A primeira é o ajuste fisiológico. Nós mesmos fazemos isso o tempo todo. Quando saímos de um ambiente frio para um ambiente quente, nosso corpo se ajusta para lidar com a mudança de temperatura. Com as espécies [de árvores] acontece algo semelhante.

Se isso não for suficiente, uma planta pode perder as condições de permanecer naquele lugar. Ela pode ser extinta localmente, mas pode, eventualmente, migrar para outros locais. Isso depende de quão rápida é a mudança e se, no caminho da migração, houver condições para ela se estabelecer.

Por exemplo, se você tem uma população [vegetal] em Manaus e as condições adequadas para ela estão mais perto dos Andes, mas, no meio do caminho, está tudo desmatado, ela não vai conseguir se estabelecer em outro lugar. Então, se ela se extinguiu aqui, acabou. Nunca mais.

E existe a possibilidade de ela evoluir. Só que isso acontece em um tempo muito além do que estamos falando agora, que é o tempo ecológico. Tudo isso que mencionei — ajuste fisiológico e migração — acontece em [questão de] dias, semanas, anos ou décadas.

Já a adaptação evolutiva ocorre por meio da seleção natural de características que tornam as populações mais adaptadas ao ambiente. Esse é um processo que leva milhares ou até milhões de anos. Portanto, não é algo que possamos esperar diante das mudanças que estão ocorrendo agora.

O estudo não encontrou uma perda generalizada de espécies em toda a região Andes-Amazônia, mas os autores alertam que esse resultado não deve ser interpretado como um sinal de resiliência florestal. O que isso significa, exatamente?

Significa que ‘a Amazônia’ não existe (risos). Cada região está passando por processos diferentes e o trabalho mostra exatamente esse padrão que eu comentei antes: regiões que estão sofrendo mais com estressores compostos estão sendo mais impactadas e perdendo espécies, enquanto outras, que permanecem mais conservadas ou são naturalmente mais frias, estão ganhando espécies.

Então, o resultado geral não significa que a Amazônia esteja resiliente como um todo. Ele mostra que existem respostas diferentes acontecendo ao mesmo tempo. E essa tendência é justamente o que a gente espera observar: devagarinho, algumas espécies vão migrando para lugares onde encontram condições mais adequadas para sobreviver.

Entre o aumento da temperatura, as alterações no regime de chuvas e a fragmentação da floresta, qual fator é o mais preocupante para a Amazônia?

Difícil responder. Como eu falei, eles interagem [entre si]. Se cada um desses problemas acontecesse isoladamente, seria uma situação. Se apenas aumentasse a temperatura, ou só diminuíssem as chuvas, seria uma coisa. O problema é que eles não acontecem sozinhos.

Eles estão acontecendo ao mesmo tempo, misturados, e é justamente essa combinação que representa o maior risco. Um lugar que está, entre muitas aspas, ‘apenas’ sofrendo redução de chuvas enfrenta uma situação diferente da de um lugar que enfrenta redução de chuvas e fragmentação da floresta ao mesmo tempo, por exemplo.

O que mais me preocupa hoje é justamente essa sobreposição de fatores: ela torna os impactos muito mais difíceis de prever e enfrentar.

Muitas pessoas olham para uma floresta e pensam que “árvore é árvore”. Mas a questão não envolve apenas quantas árvores existem ou onde estão. Na prática, o que ‘as Amazônias’, como você mencionou, perdem quando sua biodiversidade diminui?

Árvore não é só árvore. Elas são fundamentais para a manutenção da saúde do planeta, que também é a nossa saúde. Perder biodiversidade significa perder alguma função do ecossistema. O problema é que, muitas vezes, a gente só descobre qual era essa função depois que ela desaparece.

Hoje em dia, muitos estudos tentam entender o papel de cada espécie no funcionamento da floresta. Mas são espécies demais para estudar. As estimativas indicam que a Amazônia pode ter entre 15 mil e 20 mil espécies de árvores, e a gente ainda não estudou nem metade delas para saber exatamente qual é a função de cada uma.

Então, quando começamos a perder espécies, estamos perdendo possíveis substitutas para funções que muitas vezes nem sabemos que existem. É como gastar uma poupança sem saber quando ela vai fazer falta.

E aí, quando a máquina — que é o ecossistema — começa a ‘dar problemas’, pode ser tarde demais. Ela ‘quebra’ e você já não consegue consertar da mesma forma. A restauração é uma alternativa importante para melhorar a saúde dos ecossistemas. Mas, para fazer uma boa restauração, você precisa dos peças. E essas peças são as espécies.

Nós dependemos das espécies que ainda não conhecemos e conservamos. Por isso, é tão importante proteger a biodiversidade agora. Ainda existem muitas espécies sobre as quais sabemos muito pouco, e outras que sequer conhecemos completamente. Se elas forem perdidas, também perdemos opções para restaurar os ecossistemas no futuro.

Então é possível que estejamos observando uma floresta aparentemente saudável, com árvores e biodiversidade ainda presentes, mas já em processo de extinção?

Eu diria que sim. Principalmente nas bordas da Amazônia, já há espécies com pequeno tamanho populacional. Quando a gente fala de dinâmica de populações, existe uma coisa chamada tamanho mínimo crítico. A partir de certo ponto, se a população fica pequena demais, aumentam os cruzamentos entre indivíduos aparentados — e isso vai diminuindo a saúde daquela população.

Além disso, quando você tem poucos indivíduos espalhados em áreas pequenas, a chance de doenças, pragas e outros problemas afetarem a espécie também aumenta. Então o risco é muito maior.

Tem populações que ficaram pequenas por causa da fragmentação da floresta e do desmatamento. Mas também existem espécies que parecem ser naturalmente raras. A gente ainda não entende completamente o porquê. Talvez sejam espécies mais jovens, que não tiveram tempo de expandir sua área de ocupação. Ou talvez não. Ainda há muitas perguntas sem resposta.

O que sabemos é que qualquer espécie com uma população pequena é mais vulnerável. Se ela leva uma lapada de mudança climática, de fragmentação ou de desmatamento, fica muito mais perto de ser perdida do que uma espécie com populações maiores.

Os impactos das mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano de muitas pessoas, seja no calor extremo, nas secas, na fumaça ou em fenômenos incomuns observados recentemente em cidades amazônicas. Mesmo diante desse cenário, há alguma perspectiva positiva?

Eu acho que estava mais desesperançada antes de alguns resultados de pesquisa que tivemos no ano passado. Porque vimos algumas regiões se mostrando bastante resilientes.

Vou te dar uma notícia boa: existe uma área onde trabalho bastante, o meio do interflúvio Madeira-Purus, cortado pela [rodovia] BR-319 [no estado do Amazonas]. As plantas que vivem ali — elas refletem a saúde da floresta — resistiram muito bem aos dois últimos eventos do [fenômeno climático] El Niño.

Estávamos monitorando o crescimento e a mortalidade das árvores durante as duas últimas grandes secas (2023 e 2024). Em comparação com outras áreas que também estudamos, essa região praticamente não mostrou sinais de impacto. O crescimento das árvores se manteve praticamente normal na área do interflúvio Madeira-Purus, ao longo da BR-319, durante a seca, enquanto áreas próximas a Manaus apresentaram redução no crescimento.

Isso me dá esperança de que existem regiões que, se tivermos o bom senso de conservar e transformar o máximo possível em áreas protegidas, terão uma chance maior de resistir às mudanças climáticas e continuar prestando os serviços ambientais de que tanto precisamos.

Se pudéssemos voltar no tempo e mostrar aos pesquisadores de 30 ou 40 anos atrás o que estamos observando hoje, o que mais os surpreenderia?

Talvez as respostas positivas da floresta os surpreendessem. E elas ainda surpreendem muito hoje. Há 30 ou 40 anos, a gente era um pouco mais catastrofista, porque o entendimento sobre a floresta era muito mais limitado. A Amazônia é um sistema extremamente biodiverso e complexo. Entender como todas essas funções se entrelaçam para produzir uma resposta final — sobreviver e continuar funcionando — é muito difícil.

Quando os pesquisadores daquela época elaboravam modelos sobre o futuro da Amazônia, os cenários costumavam ser mais pessimistas. Talvez o exemplo mais conhecido seja o dos primeiros modelos do climatologista Carlos Nobre, que previam a ‘savanização’ da Amazônia.

Hoje, com mais conhecimento sobre como a floresta funciona, é possível compreender melhor algumas dessas respostas positivas. Não que os riscos tenham desaparecido, mas entendemos que o sistema é mais complexo — e, em alguns aspectos, mais resiliente — do que imaginávamos.

E acho que isso surpreenderia bastante os pesquisadores do passado. Mas tem uma coisa importante: a esperança tem que ser uma força que move a gente para fazer o que é necessário para que ela se concretize.

Mongabay Brasil

Conteúdo republicado — por Samanta do Carmo

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