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Clima e Meio Ambiente

Pela primeira vez, cágado-iaçá da Amazônia é incluído na lista de espécies em risco de extinção

6 min de leitura

Alimento tradicional para as comunidades amazônicas, os cágados, conhecidos na região como tracajás, foram incluídos na lista brasileira de fauna ameaçada de extinção pela primeira vez. O cágado-iaçá (Podocnemis sextuberculata) teve seu risco elevado de quase ameaçado para em perigo em uma nova lista publicada recentemente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Os tracajás foram considerados como quase ameaçados por muito tempo, mas essa é a primeira vez que uma de suas espécies foi classificada como em perigo, disse Marília Marini, coordenadora-geral de estratégias de conservação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “Para a Amazônia, o principal destaque é a entrada do tracajá”, afirmou Marini à Mongabay, por telefone. “Essa é uma situação mais delicada porque também envolve populações que o utilizam. Então, temos que ter todo um cuidado na comunicação, em como direcionar ações que não as afetem.”

Apesar dos programas de proteção e esforços de conservação, as populações de cágado-iaçá nos últimos 36 anos — equivalentes a três gerações — diminuíram mais de 50% no estado do Amazonas e no oeste do estado do Pará, o que representa aproximadamente 70% da distribuição total da espécie, levando-a à classificação em perigo, de acordo com o Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade do ICMBio (SALVE).

Atingindo um comprimento máximo de 34 centímetros e peso de 3,5 quilogramas, o cágado-iaçá é considerado uma das menores espécies do gênero Podocnemis e é amplamente consumido por comunidades ribeirinhas e indígenas na região Norte, juntamente com o cágado-tracajá (Podocnemis unifilis) e a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa), que permanecem em uma categoria de menor preocupação, segundo o ICMBio.

O jabuti-piranga (Chelonoidis carbonarius) e o jabuti-tinga (Chelonoidis denticulatus) foram reclassificados como vulnerável e em perigo, respectivamente. Presentes na Amazônia e em outros biomas, essas espécies são amplamente adotadas como animais de estimação em várias regiões do país, de acordo com o ICMBio.

Entre as novas espécies adicionadas à lista estão a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), o bugio-preto (Alouatta caraya) e o tamanduaí (Cyclopes rufus), classificados como vulneráveis.

Ao todo, 790 espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e invertebrados terrestres estão na lista publicada em junho. Quando somadas à de peixes e invertebrados aquáticos publicada em abril, o total de espécies ameaçadas sobe para 1.280.

“Infelizmente, a avaliação não é tão otimista como a gente gostaria que fosse. A gente tem entradas e saídas [de espécies na lista] mas, infelizmente, registramos um aumento do número de espécies ameaçadas”, disse Marini.

Manter as listas do país atualizadas é importante porque elas criam restrições legais para proteger a fauna, afirmou Braulio Dias, diretor de conservação e uso sustentável da biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. “As nossas listas nacionais têm valor legal e criam restrições à captura, comércio e exportação de exemplares de espécies consideradas ameaçadas.”

No entanto, elas não são atualizadas em períodos mais curtos — a lista anterior era de 2022 — explicou Dias, porque, como qualquer política pública, deve oferecer oportunidades de participação aos vários grupos que poderiam ser afetados pelas restrições. “É diferente das listas da IUCN que são só orientadoras, elas não têm valor legal,” afirmou ele, referindo-se às listas vermelhas da União Internacional para a Conservação da Natureza. “A legislação de cada país é diferente.”

Principais ameaças: perda de habitat e tráfico

No total, 15.588 espécies foram examinadas, a avaliação de risco de extinção da fauna mais extensa do mundo, segundo o ICMBio. “O Brasil é um país pioneiro”, disse Arthur Brant, coordenador de avaliação do risco de extinção em espécies da fauna do ICMBio, por telefone. “As listas vermelhas da IUCN começaram na década de 1960 e o Brasil, em 1968, teve a sua primeira lista. Então, a gente tem sempre caminhado junto com o que há de vanguarda na avaliação. E, hoje, com volume expressivo.”

Assim como nos anos anteriores, a Mata Atlântica liderou a lista de biomas com espécies ameaçadas de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e invertebrados terrestres, seguida pelo Cerrado, Caatinga e Amazônia. A situação da Mata Atlântica é um fato histórico, disse Marini, devido à perda do próprio bioma, que é o mais devastado do país, restando apenas cerca de 12,4% de sua cobertura original. “Para a fauna terrestre, a gente tem a perda de habitat como o principal vetor de ameaça.”

O tráfico de animais selvagens é um fator importante — e subnotificado — para o aumento de espécies ameaçadas, disse Marcelo Pavlenco Rocha, fundador e diretor-executivo da SOS Fauna, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para a conservação de espécies de vida selvagem vítimas de tráfico. “Os dados divulgados sobre o tráfico de animais silvestres não correspondem à realidade.”

“Não tem como mensurar quantos animais silvestres foram retirados das florestas brasileiras no ano de 2025 para atender ao tráfico. Você vai ter dados em relação ao que foi aprendido e olhe lá, porque as instituições não se comunicam entre si”, comentou Rocha, ativista ambiental há 37 anos, por telefone. “Você vai ter dados do Ibama, das polícias militares ambientais, da Polícia Federal e das polícias civis e ao compilar todos esses dados, vai chegar num número. O que ocorre é que você não tem dados do que chega ao consumidor final.”

Mais de 38 milhões de animais são retirados anualmente dos biomas terrestres do Brasil, de acordo com estimativas da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas).

Mongabay Brasil

Conteúdo republicado — por Karla Mendes

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