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“Nós não estamos entregando nem a ração completa de alimentos às pessoas, mas mesmo essa ração reduzida está sendo dividida pelos beneficiários com outras famílias, porque eles sabem que não têm nenhuma outra fonte de renda”, disse o diretor do Programa Mundial de Alimentos (PMA) no Sudão, Abdallah Alwardat.
Mais de 100 mil deslocados precisam de ajuda urgente. A fome piora, e faltam água e combustível. A escassez de recursos limita a assistência alimentar que salva vidas. O Sudão continua sendo a maior crise de deslocamento do mundo.
Em entrevista coletiva por vídeo a jornalistas em Genebra, a partir da cidade de Kosti, ao sul de Cartum, Alwardat atualizou o que havia acabado de testemunhar em El Obeid, onde o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, alertou que civis estão sob cerco há 18 meses e enfrentam ataques contínuos de drones, às vésperas de uma possível ofensiva de forças paramilitares.
“O PMA vem fornecendo assistência alimentar a mais de 100 mil pessoas nesses acampamentos dentro da cidade”, mas há muitos outros deslocados abrigados em El Obeid “que precisam de assistência urgente”, disse o representante do PMA.
“O que precisamos fazer agora é realmente planejar a ampliação para além das 100 mil pessoas que vínhamos apoiando”, destacou Alwardat, acrescentando que a agência também oferece apoio nutricional a 17 mil crianças atingidas pela crise e vivendo em acampamentos.
O humanitário, com longa experiência no terreno, descreveu como uma idosa que encontrou dependia inteiramente das rações de alimentos da agência da ONU, embora isso fosse só parte de seus problemas: ela esperava para receber a comida e só pensava em como carregá-la de volta para sua barraca. Ela queria levá-la em um pequeno tuk-tuk e ia perguntar a outras famílias se podiam dividir o custo do transporte da comida de volta para as barracas.
Faz mais de três anos que os militares rivais do Sudão embarcaram em uma guerra brutal, após o colapso da transição do país para um governo civil, depois da queda do ex-presidente Omar al-Bashir. As Forças Armadas do Sudão (SAF) seguem enfrentando os antigos aliados, a milícia Forças de Apoio Rápido (RSF), pelo controle do vasto país, onde mais de 14 milhões de pessoas foram desenraizadas e ambos os lados têm sido associados a graves violações de direitos.
Milhões fugiram através da fronteira no que se tornou a maior crise de deslocamento do mundo e um dos maiores desastres humanitários. Quase 20 milhões de pessoas no Sudão são hoje classificadas em insegurança alimentar aguda. O PMA ajuda entre três e cinco milhões dos mais vulneráveis, que enfrentam insegurança alimentar de emergência ou catastrófica.
“Queremos fazer mais, com certeza. Mas, claro, também estamos com os recursos esticados”, afirmou Alwardat. “Mas definitivamente temos o acesso. Podemos entregar a comida, podemos estar lá, e podemos trabalhar com parceiros no terreno. Os recursos é que estão nos limitando.”
O veterano humanitário contou que, nas horas de viagem de carro entre Kosti e El Obeid, cerca de 350 a 400 quilômetros de distância, não viu nenhuma operação militar. Alwardat também notou como poucos caminhões comerciais ou suprimentos seguiam rumo à cidade, onde comida, água e combustível seguem escassos. A missão do PMA à capital do Kordofão do Norte ajudou a aliviar a escassez de combustível que vinha impedindo parceiros humanitários de entregar comida a deslocados nos últimos dias.
“Enquanto tivermos o apoio financeiro necessário, acho que temos os meios e a capacidade de sustentar essa linha de vida”, insistiu Alwardat. “E temos entregado a comida; nas últimas duas ou três semanas, conseguimos entregar a comida e pré-posicionar o alimento para os próximos dois meses. Já começamos a distribuição de julho, e estamos prontos para agosto.”











