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Influenciador brasileiro alerta como algoritmos de redes sociais podem ajudar predadores a mirar em crianças


7 min de leitura

Imagem criada no Canva Pro pelo Global Voices.

Em quatro dias, um vídeo publicado por um influenciador brasileiro no início de agosto alcançou mais de 26 milhões de visualizações, virou tema de discussão dentro e fora da internet, e trouxe um novo ângulo para o debate sobre a regulação de plataformas de tecnologia no país. O assunto: crianças imitando comportamentos adultos on-line, e quem lucra com isso.

“Felca”, como Felipe Bressanim é conhecido na internet, tem 17,9 milhões de seguidores no Instagram, 6,8 milhões no TikTok e 6,2 milhões de inscritos em seu canal no YouTube. O vídeo “Adultização” abre com um aviso de conteúdo sensível, incluindo abuso sexual infantil, pedofilia e sexualização precoce. Como definiu o canal Globo News, o termo é usado para descrever quando crianças e adolescentes são expostos prematuramente a comportamentos, responsabilidades e expectativas de adultos.

No vídeo, o influenciador apresenta casos de pessoas que frequentemente colocam menores de idade em suas publicações. Um deles é o de uma mãe que vendia vídeos e fotos explícitas de sua filha adolescente pelo Telegram, depois que seguidores pediram mais conteúdo dela, segundo Felca. Outro é o de Hytalo Santos, influenciador que tinha mais de 18 milhões de seguidores no Instagram, conhecido por gravar frequentemente conteúdo com crianças e adolescentes.

Uma das meninas que ficou famosa em seu perfil apareceu ali pela primeira vez aos 12 anos, segundo Felca. Ele afirma que, quanto mais o público interagia com ela, mais vezes ela aparecia nos vídeos de Santos, em situações como dançar, dormir ao lado do namorado menor de idade ou após uma cirurgia de implante de silicone nos seios. Hoje com 17 anos, ela cresceu na frente de uma câmera e da internet. Tanto ela quanto Santos, que já era investigado pelo Ministério Público da Paraíba, tiveram suas contas suspensas pelo Instagram depois do vídeo de Felca. Santos também foi preso, acusado de tráfico de pessoas e exploração de menores. Os pais das crianças e adolescentes que autorizaram as aparições estão sob investigação.

O teste

Para testar e mostrar como os algoritmos das redes sociais ajudam predadores a buscar conteúdo relacionado à pedofilia, Felca criou uma nova conta no Instagram. Ele pesquisou palavras-chave que, na sua avaliação, provavelmente seriam usadas por esse tipo de pessoa, e curtiu conteúdos aleatórios que apareciam e pareciam, em suas palavras, “sugestivos”.

Ao rolar o feed depois disso, ele passou a receber uma curadoria de vídeos com crianças fazendo atividades cotidianas comuns, como pular numa piscina ou dançar, com seções de comentários lotadas de usuários escrevendo “link na bio”, “troca no Telegram” — normalmente postados como GIFs, em vez de frases digitadas.

“Ele caiu na malha do algoritmo P, ele foi para esses pedófilos, que têm algoritmo parecido. É assustador, porque eles pegam conteúdo que é inocente e transformam em ponto de troca. Você vê que todos os comentários são assim”, disse Felca, usando um termo próprio para se referir a como o algoritmo das plataformas pode estar condicionado a promover conteúdo com crianças.

Como Felca mostrou, ao visitar esses perfis é possível encontrar links nas biografias levando a grupos de Telegram que compartilham conteúdo com crianças e adolescentes: “Tudo a céu aberto, tudo feito debaixo do nosso nariz. Será que é tão difícil para as plataformas buscar esse conteúdo, entender o que está acontecendo, punir essas pessoas que estão botando ‘link na bio’? Não teria como fazer com que essas contas não existam? Me parece fácil de fazer essa mudança.”

Regular ou não regular, eis a questão

O vídeo estourou uma bolha num momento em que a regulação das big techs e sua responsabilidade pelo conteúdo compartilhado por usuários vêm sendo um tema polarizador no Brasil. É um assunto que geralmente divide esquerda e direita, e está entre as exigências apresentadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, na guerra tarifária que ele trava, misturada ao aumento de tarifas entre os dois países, à anistia para o ex-presidente Jair Bolsonaro (atualmente investigado por suposta tentativa de golpe de Estado) e aos interesses das big techs.

O vídeo também parece ter criado impulso político. Em 11 de agosto, menos de uma semana após sua publicação, deputados federais apresentaram 17 projetos de lei no Congresso para enfrentar as questões levantadas pelo influenciador. Em 20 de agosto, após a repercussão pública em torno do vídeo, a Câmara dos Deputados votou e aprovou o projeto de lei 2628/2022, que cria regras de proteção a crianças e adolescentes em aplicativos, jogos eletrônicos, redes sociais e programas de computador, segundo o site da Câmara. A proposta, que voltou ao Senado para análise, prevê obrigações para provedores e pais no controle do acesso de menores.

No ano passado, o Instituto Alana, organização voltada à defesa dos direitos das crianças, publicou uma nota de apoio ao projeto, “considerando a hipervulnerabilidade de crianças e adolescentes diante da exploração comercial praticada por provedores e servidores de informação tecnológica no ambiente digital”.

Em junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) votou a favor da responsabilização das plataformas de redes sociais por publicações ilegais feitas por seus usuários. Os ministros determinaram que o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que faz parte da espécie de “carta de direitos” da legislação brasileira sobre internet e trata da responsabilização das plataformas por conteúdo criado por terceiros, é apenas parcialmente constitucional.

O STF também é hoje alvo de polarização política, sob ataque do governo Trump. Um de seus ministros, Alexandre de Moraes, foi classificado como violador de direitos humanos e sancionado sob a Lei Magnitsky por causa das investigações sobre a tentativa de golpe liderada por apoiadores de Bolsonaro. Entre as ordens de Moraes nos últimos anos estiveram a suspensão de contas que espalhavam desinformação e discurso de ódio, e até a suspensão do próprio X por descumprir ordens judiciais no país.

Para parte das pessoas mais alinhadas à direita do espectro político, regulação é sinônimo de censura. Perfis no X têm questionado o vídeo de Felca, suspeitando que haja uma intenção pró-regulação escondida por trás dele. Em um podcast, o influenciador disse que teve a ideia há um ano, e que levou um tempo para preparar o vídeo de 49 minutos. Ele também disse que atualmente anda em um carro blindado com seguranças por causa de ameaças recebidas depois de publicar outro vídeo criticando casas de apostas e os influenciadores patrocinados por elas no Brasil. Com esse último vídeo viral, ele disse que já há ameaças de processo contra ele.

“Provavelmente existe, e a gente conta com isso, que vai existir alguns processos aí. Mas é o lado da verdade. Se ninguém fala, ninguém vai falar”, disse Felca.

Global Voices

Conteúdo republicado — por Global Voices Brazil

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